Ligações rápidas

Horário de Funcionamento:
Segunda, Quinta e Sexta
15:00 / 20:00

Sábados e Domingos
11:00 / 18:00

 

 

Áreas Principais

Foi Fevereiro na Achada

2 de Março de 2020

Há livros que nos marcam para a vida toda. Na Casa da Achada, onde há uma biblioteca pública recheadinha de livros, inaugurámos há pouco tempo uma rubrica assim chamada: «Estes livros por alguma razão». No dia 22 de Fevereiro, Ariana Furtado – amiga da Casa da Achada há muito tempo – veio apresentar-nos o livro: Cabo-Verde, notas atlânticas de Jean-Yves Loude e explicar como e porquê este livro foi tão importante para ela. Contou-nos que conheceu o escritor mesmo na Casa da Achada e descobriu até que uma das personagens do ensaio era um familiar seu. Foi uma sessão com poucas pessoas mas que deu uma conversa bem animada.

No dia seguinte, 23 de Fevereiro, estivemos a ler e discutir um conto de Italo Calvino, «A aventura de uma banhista» que nos pôs a falar de “vergonhas” e pudores da nossa sociedade ontem e hoje.

No dia 28 houve mais uma sessão do Ouvido de Tísico, sessão à escuta de Memória de um pintor desconhecido (1965), um livro de poesia de Mário Dionísio lido integralmente (!) por Diana Dionísio. Houve quem dissesse que não sabe ler poesia, mas assim… “que maravilha!”

Às segundas, como de costume, andámos a ler A Paleta e o Mundo – ensaio de Mário Dionísio sobre arte e sociedade – ao fim da tarde, às 18h30, com a ajuda de Lena Bragança Gil e José Smith Vargas. E à noite há sempre cinema com apresentação e às vezes debate. O ciclo Mudo continua até final de Março com filmes raros e ruidosamente silenciosos.

Na sequência de um trabalho de pesquisa no arquivo do Centro de Documentação encontramos uma coisa curiosa: uma peça de teatro de Mário Dionísio escrita quando ele estava no sanatório do Caramulo a tratar uma tubercolose. Antonino Solmer veio ajudar-nos a pensar que teatro se pode fazer com um texto assim, uma “brincadeira” supreendentemente cómica e rica, num tom revisteiro. Será que dá para fazermos um teatro?

Atenção: a sessão da nossa rubrica «Estes livros por alguma razão» prevista para dia 8 foi adiada para sábado 22 de Fevereiro de 2020. Sempre às 15h30.

7 de Fevereiro de 2020

CRUZAR MUNDOS, BUSCAR FUNDOS

19 de Dezembro de 2019

Todos os anos, na altura das festas natalícias, há um fim-de-semana «diferente» na Casa da Achada. Estes dias especiais servem para reunir os amigos e os desconhecidos à volta de temas para pensarmos em conjunto, conversar, cantar, conviver e angariar fundos para que a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio possa prosseguir a sua actividade. Este ano chamámos a estes cinco dias «Cruzar mundos, buscar fundos» e não foi por acaso. O que para nós era e é urgente, neste final de Dezembro, é de facto pensar em como continuar a viver e funcionar para outros muitos anos, apesar das dificuldades e da precariedade da vida de cada um de nós e da nossa vida em colectivo.

Assim, enchemos a Casa de objectos que os amigos artistas que nos rodeiam fizeram especialmente para a ocasião: um calendário para 2020 com design de Cristina Reis, um poster especial feito por Bárbara Assis Pacheco, sacos com frases de Mário Dionísio desenhados por Diana Dionísio, José Smith Vargas, Marta Caldas, Nadine Rodrigues, Olga Pavlovska, Pedro Rodrigues, Pierre Pratt e Regina Guimarães, cadernos, crachás, frascos de doce feitos na Madeira e amêndoas da Beira Alta, brincos e penduricalhos feitos em madeira a partir de quadros de Mário Dionísio, etc…

Também enchemos a Casa de obras de arte, serigrafias, gravuras, de livros em segunda mão e, claro, das nossas próprias edições, com um destaque particular para a mais recente: Contos completos, que reúne todos os contos de Mário Dionísio, incluindo os que estavam esgotados há muito tempo, e que tem um interessante prefácio de Paula Morão.

Ainda sobraram algumas coisas que, nos próximos tempos, continuarão à venda na Casa da Achada. Venham ver!

Além disso, houve coisas a acontecer. Na quinta-feira, acolhemos uma sessão proposta pela Associação Atrevida: a apresentação do livro Novas vozes para um mundo novo, com textos de autores entre os 10 e os 14 anos dos quatro cantos do mundo. Foi uma sessão muito simpática e participada.

Na sexta-feira, Diana Dionísio propôs a audição de um programa sonoro de duas horas e meia, com textos e música, em torno do tema «O absurdo do Natal». Foi a nona sessão da rubrica «Ouvido de Tísico», em que a ideia é mesmo ficarmos a ouvir colectivamente alguma coisa. Não faltou o bolo rei e o vinho, para ajudar.

No fim-de-semana propriamente dito, organizámos conversas sobre várias questões relativas às nossas urgências. Era urgente falar de poesia e de pintura à sombra da exposição intitulada «(pintura sem assunto dirão os visitantes)», que põe em diálogo o poema «Pinto» de Mário Dionísio e alguns quadros da sua fase abstracta, e que pode ser vista na Casa da Achada até Abril de 2020. Na tarde de sábado, alguns escritores e pintores, como Augusto Meneghin, Filomena Marona Beja, Hélia Correia, João Paulo Esteves da Silva, Judite Canha Fernandes, Sofia Areal, Regina Guimarães ajudaram-nos a pensar na relação entre poesia e pintura e no acto de criar. O resultado foi um debate sobre a «verdade e a mentira» na arte e na vida, sobre a ficção e o acto de pintar, sobre a relação do artista com o mundo, com a caneta e com a tela. E, naturalmente, sobre a poesia e a pintura de Mário Dionísio, de onde tudo partiu.

No mesmo dia assistimos ainda à leitura de Diogo Dória do conto «A morte é para os outros», de Mário Dionísio, e ouvimos um concerto «itinerante» de Pedro e Diana que foi por vezes lírico e divertido e que também dialogava com a exposição, com a poesia. O Coro da Achada, como não podia deixar de ser, fechou a noite com um concerto muito participado e explosivo.

No domingo, tivemos ocasião de falar, com o economista José Maria Castro Caldas e o arquitecto desenhador Pitum Keil do Amaral, de outra coisa que tanto nos preocupa neste momento: o dinheiro. O resultado foi uma conversa entre o sério e o surreal sobre a origem, a existência e a inexistência do dinheiro, e também sobre como se pode ultrapassar a sua insuficiência com soluções imaginativas, como as que nos mostrou o Pitum, numa divertida projecção de postais de natal, feitos por ele e pela sua companheira Lira, ao longo de dezenas de anos.

Ao final da tarde voltámos à pintura e à poesia, vendo três belíssimas curtas-metragens do realizador holandês Johan Van Der Keuken: LucebertTempos e AdeusVoltámos a falar do processo de criar, de pintar, voltámos a lembrar-nos do poema «Pinto» de Mário Dionísio.

Para acabar o dia, sorteámos um cabaz cheio de alimentos para a cabeça, o coração e o estômago (a Autobiografia e os Contos completos de Mário Dionísio, um calendário 2020, o DVD Kantata de Algibeira, postais e cadernos da Casa da Achada, amêndoas, doces, uma abóbora, um presunto…), a que estavam habilitados todos os Amigos da Achada que tivessem as quotas pagas até Dezembro de 2020. Foi a nossa Amiga nº 485, Cecília Morgadinho, a feliz contemplada!

No último destes dias, segunda-feira, 16 de Dezembro, passou-se o que se costuma passar na Casa da Achada às segundas-feiras: leitura colectiva d’A paleta e o mundo ao fim da tarde e sessão de cinema à noite, com o filme Mergulho no passado de F. Perry e S. Pollack.

Obrigada a todos os que vieram fazer estes dias connosco e que deram a sua contribuição para que a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio possa continuar a disponibilizar um Centro de Documentação e uma Biblioteca Pública, e a fazer exposições e sessões com conversas, leituras, filmes, oficinas, etc.

CRUZAR MUNDOS, BUSCAR FUNDOS

9 de Dezembro de 2019

De 12 a 16 de Dezembro na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio

5 dias de actividades e prendas, com conversas, músicas, leituras, debates e filmes.

Nestes dias, as nossas edições mais recentes, novas edições que dão boas prendas de Natal, um livro de contos de Mário Dionísio, um calendário para 2020, um poster especial, outras edições mais antigas, livros usados, obras de arte em papel e pinturas, sacos pintados por várias mãos, saem das prateleiras e gavetas, de trás do balcão, e saltam para a entrada, lembrando a quem entra que a Casa da Achada precisa de apoio para viver e fazer o que faz.

Na quinta-feira 12 abrimos as portas e na sexta-feira 13 estamos à escuta do programa sonoro «O absurdo do Natal», em mais uma sessão da rubrica «Ouvido de Tísico».

No sábado 14 as artes cruzam-se numa conversa sobre criação artística, poesia e pintura, com pintores e poetas (Hélia Correia, Augusto Meneghin, João Paulo Esteves da Silva, Regina Guimarães, Saguenail, Sofia Areal e outros) a partir de «Pinto», um poema de Mário Dionísio do livro Memória dum pintor desconhecido que dá mote à exposição que até Abril se pode ver na Casa da Achada: (pintura sem assunto dirão os visitantes).

A meio da tarde, Diogo Dória lê um conto de Mário Dionísio, e depois há música e poesia com Pedro e Diana e o coro da Achada.

No domingo 15 enfrentamos, com sentido de humor (mas a sério!), os problemas de carcanhol dos tempos que correm numa conversa natalícia: afinal, «o que é o dinheiro?», perguntamos a gente que intervém na cultura e a economistas, enquanto tentamos angariar fundos para ajudar a Casa da Achada a manter-se aberta e viva por mais um ano. Sorteamos um cabaz de livros e diversas iguarias, a que estão habilitados todos os Amigos que tiverem paga a quota de 2020. Depois, tempo ainda para um belo filme do holandês Johan van der Keuken.

Na segunda 16 temos a programação habitual, com leitura d’A paleta e o mundo de Mário Dionísio ao fim da tarde e cinema à noite, com um filme do ciclo «Quem conta um conto…», e ainda dá para vir comprar uma daquelas prendinhas de última hora.

Para continuar a cruzar mundos, artes, pessoas, fazeres e ideias.

programa:

Sexta-feira, 13 de Dezembro, às 18h30

Ouvido de Tísico nº 9: O absurdo do Natal -um programa sonoro-musical adequado à época

Na Galileia está um menino deitado nas palhas da miséria, adoptado por um carpinteiro e aquecido por um burro e uma vaca, e é por isso que um velho bem alimentado com pinta de norte da Europa, vestido pela coca cola, vem por esta altura a Lisboa, que está cheia de neve e trenós puxados por renas, tentar esgueirar-se pelas casas que têm chaminé para deixar prendas de última geração a quem se portou bem. Ouvem-se, ao longe e ao perto, as missas e as moedas, os anjos e os pecados, os jingles e os bells. Tornamo-nos agora surdos e absurdos.

Nas sessões «Ouvido de Tísico» a proposta é escutar. Fácil? Difícil? Num mundo que nos quer entupir os ouvidos, nós queremos continuar a fazer cócegas ao caracol. Ouvir-se-ão textos de vários autores, saladas musicais, documentos desencantados do Centro de Documentação da Casa da Achada, discos do princípio ao fim, entrevistas, enfim, de tudo um pouco. Pode-se ouvir de pé ou sentado, sentado ou deitado. Pode ouvir-se de olhos fechados ou abertos, abertos ou semicerrados. Pode-se desenhar enquanto se ouve, ou escrever, ou não fazer mais do que… ouvir.

Com Diana Dionísio


Sábado, 14 de Dezembro às 15h30

Eu e a tela frente a frente nos medimos

Conversa com pintores e poetas a partir do poema «Pinto» de Mário Dionísio. Com João Paulo Esteves da Silva, Regina Guimarães, Saguenail, Augusto Meneghin, Sofia Areal e outros.


Às 17h30

A morte é para os outros

Leitura do conto de Mário Dionísio por Diogo Dória.


Às 18h30

Concerto de Pedro e Diana

com música e poesia

e canções do Coro da Achada

Domingo, 15 de Dezembro, às 15h30

O que é o dinheiro?

Conversa de Natal a brincar e a sério sobre problemas de carcanhol. 

Com Pitum Keil do Amaral, Luiz Rosas e outros.


Às 18h30

Lucebert, tempo e adeus

de J. Van Der Keuken. (52’)

Documentário holandês da autoria de Johan Van der Keuken acerca do poeta e pintor do grupo COBRA. Trata-se um tríptico, composto de três curtas metragens, rodadas em 1962, 1966 e 1994.

MARIA EMÍLIA DINIZ

5 de Novembro de 2019

No passado dia 1 de Novembro de 2019, faleceu, aos 85 anos, Maria Emília Diniz, fundadora da Casa da Achada – Centro Mário Dionísio. Licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi professora de História, em vários liceus de Lisboa, como o Pedro Nunes, Rainha Dona Leonor e Maria Amália Vaz de Carvalho. Foi também metodóloga e orientadora de estágios e autora de manuais escolares.

Foi colega e amiga de Mário Dionísio e de Maria Letícia e colaborou com eles em questões relacionadas com o ensino e a pedagogia. Entre Março de 1968 e Julho de 1969, Maria Emília Diniz e Maria Letícia mantiveram no jornal A capital a coluna «Consultório Escolar», em que respondiam a questões postas pelos leitores. Assinavam com o pseudónimo Dinis da Silva, uma vez que os professores do ensino oficial só podiam, nesta época, escrever nos jornais sobre ensino depois de superiormente autorizados. Imediatamente a seguir ao 25 de Abril, Maria Emília Diniz pertenceu, com Mário Dionísio e Maria Letícia, à Comissão de docentes encarregada de rever e actualizar os programas do Ensino Básico e Secundário e de elaborar os respectivos materiais de apoio.

Foi sócia fundadora da Casa da Achada – Centro Mário Dionísio e participou em várias sessões de vários tipos. Por exemplo, conversou connosco sobre a Comuna de Paris (na rubrica «histórias da História»), apresentou o filme A tomada do poder por Luís XIV, de Rossellini, participou em sessões sobre Mário Dionísio e a reforma do ensino em 1974 e também sobre Maria Letícia.

SEBASTIÃO LIMA REGO – MAIS UMA GRANDE FALTA

24 de Outubro de 2019

Sebastião Lima Rego – mais uma grande falta

na Casa da Achada-Centro Mário Dionísio

no nosso país e (porque não dizer) no mundo, que é grande e pequeno, como as coisas que lhe interessavam, diziam.

Formado em direito, habituado a associações e organizações, à intervenção ali onde estava, e também poeta, morreu.

Desde 2012, por proposta sua, manteve na Casa da Achada, uma rubrica que começou em 2012, a que se chamou «histórias da História» – e as minúsculas e maiúsculas na mesma palavra fazem todo o sentido. Efemérides do mês em que se estava, tratadas no tempo de hoje, raramente por historiadores encartados, mas por quem sabia disso (com ou sem diplomas) ou por quem tinha vivido o que aconteceu.

Que é o futuro sem uma certa memória? – voltou a repetir-se por vozes várias nos «10 anos da Casa da Achada», em Setembro 2019, onde ele infelizmente não esteve.

Em 7 anos, raríssimas sessões desta rubrica falharam e nunca por culpa de Sebastião Lima Rego.

Foram mais de 40 sessões. Ver aqui.

Agora, sem ele não se repetirão nem poderão continuar.

Sebastião Lima Rego fez ele próprio uma dúzia sessões – todas sobre as 1ª e 2ª guerras mundiais, de que sabia tanto, associando coisas que quase não nos passam pela cabeça. E a gente que quis aprendeu. Quem não quis perdeu. Há gravações que podem ser editadas.

Isto começou quando, em 2010, Sebastião Lima Rego veio apresentar na Casa da Achada a sua poesia, sessão que foi a primeira de uma rubrica a que chamámos «Itinerários» e que durou até 2015. Nessa sessão ele falou desse tempo em que estava preso em Peniche quando o 25 de Abril aconteceu. Ver aqui.

Ao centro destes «Itinerários», a vida de pessoas que começaram por uma ponta e descobriram outra, desfazendo pela vida que viveram ,as «caixinhas» de que o saber de hoje se faz.

Por isso, e muitas outras coisas, obrigada, Sebastião (já não podes ouvir) e até sempre.

Casa da Achada- Centro Mário Dionísio

10 anos da Casa da Achada!

12 de Setembro de 2019

Entre 26 de Setembro e 1 de Outubro a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio vai comemorar 10 anos de abertura. Este ano a festa prolonga-se por seis dias com um programa intenso cheio de actividades. Venham todos!

É verdade. Foi há 10 anos que a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio abriu ao público, em Lisboa, em 29 de Setembro de 2009. Desde essa data, tem feito conversas, edições, exposições, oficinas, discussões sobre filmes, livros, quadros, sobre a cidade e a vida, a paleta e o mundo, mantém uma Biblioteca e Mediateca Públicas com um largo horário de abertura e tem tratado e disponibilizado o arquivo de Mário Dionísio e Maria Letícia, composto por milhares de documentos. Ainda antes de a Casa abrir nascia o Coro da Achada, uns anos depois o Grupo de Teatro Comunitário da Casa da Achada, que ensaiam semanalmente e têm feito inúmeras apresentações.

Para assinalar os 10 anos, porque não estamos sozinhos e isto anda tudo ligado, convidámos vários amigos de outras associações e terras para virem discutir o fazer das artes, a política e a vida, as palavras, os arquivos, as associações.

Inaugura uma nova exposição de pintura de Mário Dionísio, lançamos uma edição que reúne todos os seus contos, haverá leituras e convívio, o Coro da Achada apresenta um espectáculo sobre os porquês de cantar.

A Leitura Furiosa em 2019

11 de Julho de 2019

A Leitura Furiosa é um acontecimento extraordinário de três dias, em que pessoas «zangadas com a leitura» se encontram com escritores. Dos encontros nascem textos que são ilustrados, paginados numa brochura, lidos em voz alta, por vezes musicados.

A Leitura Furiosa acontece anualmente há mais de 25 anos em Amiens (França), levada a cabo pela associação Cardan, e tem-se realizado desde há vários anos em Lisboa e no Porto (para além de outros sítios, mais pontualmente). Acontece exactamente no mesmo fim-de-semana em todos os sítios, o que implica também que os textos, franceses e portugueses, sejam traduzidos nos primeiros dois dias para poderem integrar a brochura final que sai no domingo.

Ainda a Casa da Achada não tinha aberto ao público (estava ainda em obras…) e já a sua porta se abria extraordinariamente para a Leitura Furiosa, em Maio de 2009. E não mais a deixámos de fazer.

Contudo, este ano estivemos para não fazer a Leitura Furiosa na Casa da Achada. Não porque parecesse pouco pertinente ou a ideia tivesse perdido alguma pincelada de brilho, mas sim por razões muito práticas. Por motivos diversos, três pessoas, que nos anos anteriores foram fundamentais para a realização da Leitura Furiosa (desde os contactos com Amiens e Porto e com os grupos de Lisboa, o envio e recepção de textos, até a questões de organização logística), anunciaram que não poderiam este ano meter mãos à obra. E a Leitura Furiosa (felizmente!) não é só uma ideia: precisa de mãos para que aconteça. Daí termos pensado muito bem como havíamos de nos organizar e se seria possível ou não entrarmos este ano nesta aventura.

Sim. A Leitura Furiosa tinha de acontecer! É um momento único em que se misturam classes, mundos, diversos saberes e artes, entusiasmos e palavras em várias línguas. É um momento em que a Casa da Achada se liga não só a Amiens e ao Porto, mas a muitos mais lados, físicos ou não. Como havia que ser realista, tendo em conta as «baixas» importantes na organização e realização de tudo isto, decidimos não fazer mais do que três grupos.

Os escritores Filomena Marona Beja, José Mário Silva e Nuno Milagre encontraram-se com pessoas do Centro de Apoio Social de S. Bento, do Conselho Português para os Refugiados e da Escola nº 10 do Castelo. Os textos foram ilustrados por Bárbara Assis Pacheco, Pierre Pratt e Rita Dias. No domingo, foi lançada uma brochura com os textos e as ilustrações de Lisboa, do Porto e de Amiens e muitos foram lidos pelos actores Carla Bolito, F. Pedro Oliveira, Fernanda Neves, Inês Nogueira e Margarida Rodrigues e musicados por Pedro e Diana, numa sessão final com todos os participantes e muita outra gente.

Obrigada a todos os grupos, escritores, ilustradores, cozinheiros e lavadores de loiça, tradutores, paginadores, revisores, actores e demais participantes que tornaram possível fazer a Leitura Furiosa.

Aqui fica a brochura em PDF com todos os textos e ilustrações. Ainda há também brochuras em papel disponíveis na Casa da Achada. Passem por cá!

Nova data para «Absurdíssimo»

13 de Maio de 2019

O Grupo de Teatro Comunitário da Casa da Achada vai apresentar o seu novo espectáculo «ABSURDÍSSIMO» de Santos Fernando também no dia 18 de Maio às 18h00.


Entrada livre.

É preciso reservar. Indiquem o dia em que querem assistir à peça e o número de pessoas: 218 877 090

LEITURA FURIOSA: sessão pública

10 de Maio de 2019

Este ano, em Lisboa, os escritores Filomena Marona Beja, José Mário Silva e Nuno Milagre encontram-se com pessoas do Centro de Apoio Social de S. Bento, do Conselho Português para os Refugiados e da Escola do Castelo e escrevem os textos que serão ilustrados por Bárbara Assis Pacheco, Pierre Pratt e Rita Dias e lidos e musicados, na sessão pública, por F Pedro Oliveira, Fernanda Neves, Inês Nogueira, Margarida Rodrigues, Pedro Diana Pedro Diana e outros.

A Leitura Furiosa dura três dias. É um momento especial: quem é (ou que a vida tornou) zangado com a leitura, a escrita (e até o mundo) encontra-se com escritores! É um momento único que permite a um não-leitor aproximar-se da magia da escrita, por intermédio de uma pessoa que escreve literatura. Cada um faz ouvir a sua voz e até pode seguir depois um novo caminho, ao descobrir pessoas, coisas, frases, palavras que têm a ver com a sua vida e podem fazer pensar. Em si e nos outros.

Alguns pequenos grupos de gente zangada com a leitura convivem durante um dia com um escritor. Almoçam. E continuam a conversar.
À noite, o escritor escreverá em casa um pequeno texto, a partir do encontro, que oferecerá ao grupo com quem esteve, quando, no dia seguinte, voltarem a encontrar-se, desta vez na Casa da Achada. Lê-se o texto, fala-se do texto, muda-se o texto.
E os textos dos vários grupos são ilustrados por desenhadores convidados, à vista de toda a gente.
Depois do almoço, em que zangados com a leitura, escritores e ilustradores se reúnem, todos os grupos visitarão, com o seu escritor, uma biblioteca ou livraria.

SESSÃO PÚBLICA:


No domingo (26 de Maio, às 15h), os textos são tornados públicos (os que vêm de França são traduzidos para português) numa sessão de leitura em voz alta feita por actores, e alguns deles serão musicados e cantados. Será distribuída uma brochura ilustrada, com os textos escritos nas várias cidades, onde cada um, de uma maneira ou de outra, estará: mesmo quem está zangado com a leitura pode entrar, querendo ou não querendo, na literatura que os leitores costumam ler e que os zangados com ela poderão ler também.

CANDIDO PORTINARI: DO CAFEZAL À ONU

10 de Maio de 2019

A palestra, de João Candido Portinari, se desdobra em três partes: a vida e obra de Portinari, o trabalho do Projeto Portinari e, sua mais recente iniciativa, o «Projeto Guerra e Paz».

«A coruscante trajetória artística de Portinari começa em um humilde povoado perdido nas imensas plantações de café do Estado de São Paulo. Após legar ao País um retrato emocionado e grandioso, em mais de 5 mil obras, do povo, da vida e da alma brasileira, ela vai atingir o seu ápice nos monumentais painéis «Guerra» e «Paz», presente do Brasil à Organização das Nações Unidas.

De fato Portinari pode bem ilustrar a famosa reflexão do escritor russo Tolstoi: se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia…

Se Portinari retratou abundantemente os meninos e meninas de Brodowski, ao final pinta crianças universais, como no coral de crianças de todas as raças, que se destaca no mural «Paz». Se antes suas «Pietás» — da clássica imagística católica, as mães com o filho morto ao colo — são retirantes nordestinas, no mural «Guerra» elas se transformam em mães universais.

Na segunda parte apresentamos o trabalho de 40 anos do Projeto Portinari, empenhado no levantamento, catalogação, pesquisa e disponibilização da obra e vida do pintor.

A última parte focaliza a sua iniciativa mais recente. Após obter da ONU a guarda dos originais «Guerra» e «Paz» durante o período 2010-2015, o Projeto Portinari trouxe a obra-prima do pintor para restauro e exposição no Brasil, e em Paris, reinaugurando-os depois no grande plenário da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 8 de setembro último, com o discurso inaugural proferido pelo Secretário Geral da Organização das Nações Unidas, Ban-Ki-Moon, no grande plenário da Assembléia Geral da ONU.»

João Candido Portinari

«Ouvido de tísico»

6 de Abril de 2019

Nas sessões «Ouvido de Tísico» a proposta é escutar. Fácil? Difícil? Num mundo que nos quer entupir os ouvidos, nós queremos continuar a fazer cócegas ao caracol. Ouvir-se-ão textos de vários autores, saladas musicais, documentos desencantados do Centro de Documentação da Casa da Achada, discos do princípio ao fim, entrevistas, enfim, de tudo um pouco.

O primeiro programa, no dia 5 de Abril, teve cerca de uma hora e foi a apresentação desta série de sessões.

Pode-se ouvir de pé ou sentado, sentado ou deitado. Pode ouvir-se de olhos fechados ou abertos, abertos ou semicerrados. Pode-se desenhar enquanto se ouve, ou escrever, ou não fazer mais do que… ouvir.

Aos amigos e sócios da Casa da Achada

11 de Janeiro de 2019

A Casa da Achada – Centro Mário Dionísio está a repensar os seus modos de funcionamento e de organização. Haverá uma redução da actividade porque estamos a preparar sessões futuras, ciclos, oficinas e novas edições. E no final de Janeiro há eleições para os novos corpos gerentes da Associação.

Mas continuem a visitar-nos no mesmo horário de abertura ao público. A biblioteca está a funcionar, o centro de documentação continua disponível para consulta e mantêm-se as sessões de leitura do ciclo «A Paleta e o Mundo VI», os encontros de Leitores Achados e o ciclo de cinema «Remakes». Além disso, realizar-se-ão algumas sessões pontuais e continuam os ensaios do Grupo de Teatro Comunitário da Casa da Achada e do Coro da Achada.

Janeiro de 2019
A Direcção

Oficina «Caixa de primeiros socorros» cancelada

17 de Setembro de 2018

O Grupo de Saúde Antiautoritária pede desculpa, a oficina de dia 23 está cancelada.

Até uma próxima!

Uma proposta de Luis Miguel Cintra

17 de Setembro de 2018

Em Maio formou-se, na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, um grupo de discussão em torno da Preparação do Actor, de Konstantin Stanislávski, a partir de uma proposta de Luis Miguel Cintra. A partir de Outubro os trabalhos abrir-se-ão a um conjunto de interessados na actividade, nomeadamente estudantes, actores em início de carreira, profissionais ou não-profissionais. Até 25 de Setembro estarão abertas as inscrições para três encontros nos quais serão encontrados os participantes.

Os encontros terão lugar na Casa da Achada nos dias 2 e 3 de Outubro a partir das 14h00 e no dia 4 de Outubro a partir das 21h00. No e-mail de inscrição, os interessados deverão indicar qual destes dias lhes é mais conveniente. Os trabalhos deverão depois decorrer em horário pós-laboral, em dias a combinar entre os participantes, Luis Miguel Cintra e a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio.

Contacto para inscrições nos encontros: preparacaodoactor@gmail.com

Texto de Luis Miguel Cintra sobre a proposta:

Lisboa mudou. O país mudou. Ninguém tem bem a certeza se para bem, se para mal. Mas voltar para trás sempre foi um mau caminho. As escadinhas de S. Cristóvão, a dois passos da Casa da Achada, estão imundas, quando as comparamos com a triste realidade do filme de Oliveira, A Caixa. E, no entanto, não faltam turistas. O teatro que se vê em Lisboa mudou. Ninguém já nele reconhece o caminho para a utopia do Teatro Independente. Passou a ser normal o Estado não assumir a responsabilidade de espectáculos programados por independentes para bem das populações. E, nos teatros do Estado, pouco transparece daquilo que foi a energia que, depois das estruturas do antigo regime, garantiu a actividade teatral ao longo de tantos anos, depois do 25 de Abril. Mesmo em pequenos detalhes: já não é possível um espectáculo durar mais do que uma hora e meia, duas horas; já não é possível que o autor seja mais importante que as vedetas; já não é possível a igualdade de salários; já não é possível a construção de guarda-roupas, sobretudo de época; já não é possível a construção de cenografias, porque a ocupação do espaço livre é dinheiro que o teatro não merece. Algum mal-estar subsiste, porém, na aplicação desta amnésia. Foi o que me ocorreu quando, por exemplo, fui alertado pela tradutora Nina Guerra da iniciativa de se publicar uma nova tradução do livro de Konstantin Stanislávski directamente a partir do russo, por parte do Teatro Nacional, uma vez que parecia aparentemente contraditória com a sua agilidade de programação e capacidade de resposta a necessidades de aumento de produção, ou seja, rentabilidade do dinheiro público investido nos espectáculos.

Mas se algumas dúvidas restassem sobre as boas intenções da nova orientação, com o livro de Stanislávski, afirma o director do TNDMII querer trabalhar para suprir a falta de obras técnicas e de teoria teatrais e lutar «por uma ideia de serviço público de cultura que resiste à cegueira dos mercados» e dar um «contributo para tornar o teatro mais acessível a todas e todos». É difícil de entender nestas boas intenções a coerência com a mudança do estilo de produção, necessariamente mais apressada e de consumo simples, que tem contribuído para a anunciada, nova e compensadora corrente de público que satisfaz o mercado. Reconhecemos antes em iniciativas destas e nas regras de apoio à actividade em geral, um predomínio da eficácia de programação com critérios de mercado que faz um corte com a contribuição que o teatro dos chamados grupos independentes julgou dar à História do Teatro Português. A própria Preparação do Actor, tendente a criar um “sistema” de ensino para o actor, contido no livro de Stanislávski, dificilmente coincide com os esquemas de produção a que a actividade teatral se vê forçada. Onde Stanislávski interroga, as actuais regras de produção ditam leis de utilização do tempo e do espaço. O trabalho que Stanislávski propõe, passou a ser traduzido na versão tecnocrática do método de Michael Checkov, que da Rússia Soviética passou a Beverly Hills, na Califórnia e que transformou o trabalho de preparação do actor como verdadeira arte, numa receita de culinária de fácil, rápida e económica confecção. Não falando já nas extintas artes de construção de cenografia e guarda-roupas, facilmente substituíveis por imagens virtuais e projectores de alta potência.

Perante isto, e respondendo a um desafio feito por mim, alguns artistas de teatro de diferentes idades e práticas, pessoas ligadas à Casa da Achada – Centro Mário Dionísio e membros do público, resolveram promover um processo de discussão em torno da profissão de actor, entendida como arte, levando mais longe do que a simples discussão de financiamentos e direitos laborais a responsabilidade que pensamos caber aos artistas-actores na luta por uma dignidade artística do teatro que consideramos ameaçada. Depois da reflexão que a Casa da Achada tem promovido em torno de A Paleta e o Mundo, de Mário Dionísio, julgamos tratar-se de uma extensão das preocupações reveladas nessa obra. Sem rancor; é um aviso que alguma experiência nos permitirá.

Numa primeira fase, um grupo de que fazem parte Bruno Bravo, Diana Dionísio, Eduarda Dionísio, F. Pedro Oliveira, Guilherme Gomes, Levi Martins, Luis Miguel Cintra, Margarida Rodrigues, Nídia Roque, Pedro Rodrigues, Rui Coelho, Vasco Pimentel, tem-se reunido regularmente para conversar sobre o assunto. Numa segunda fase, chamaremos voluntários entre alunos de teatro e simples amadores, e faremos a experiência de, com eles, transformarmos algumas das cenas narradas por Stanislávski em aulas que ele fantasiou, em cenas de teatro. Convidámos o Diogo Dória (ele próprio professor de teatro) para o papel do professor inventado por Stanislávski, o que ajudará a destruir a distância entre profissional e não-profissional, aliás pouco interessante para o trabalho em si. Pensamos assim tornar prática e concreta a “filosofia” sobre o assunto. Convidaremos, quando o trabalho estiver adiantado, um board de profissionais de reconhecido valor público para connosco discutir as ideias lançadas e as soluções cénicas que nos terão surgido. E, finalmente, conforme o resultado a que chegarmos, porque ao contrário do que se pensa, a criação artística tem necessariamente de passar por muitos erros e experiências, convidaremos o público em geral para discutir os resultados. São todas as pessoas, mais até do que os profissionais de teatro, aquelas que a responsabilidade pública devia ter em mente, como aqueles que têm direito ao acesso às práticas artísticas. E está nas mãos dos actores assumir ou rejeitar as vias para o seu trabalho que, neste momento, lhes estão a ser oferecidas. Tudo isto por amor à vida.

Luis Miguel Cintra

Exposição DISSIMULAZIONI

5 de Agosto de 2018

 

Esta exposição não nos fala da arqueologia culta que já estamos habituados a apreciar por ser um resto silencioso do passado, mas antes da ruína que data de ontem como um tempo nosso. As paredes rasgadas dos prédios, os rebocos fragmentados evocam, aludem, dizem-nos que arqueologia é palavra de hoje, é a arqueologia do quotidiano sobre a qual desatentamente caminhamos e que as belas fotos de Paolo nos devolvem, dando-nos consciência disso.

Franco Guerzoni, 2018

 

Franco Guerzoni e Paolo Barbaro – o primeiro está entre os mais importantes artistas italianos da pesquisa conceptual, o segundo é conservador e historiador de fotografia – conhecem-se desde a segunda metade dos anos 70. 

Em 2012 Paolo Barbaro está em Lisboa, reencontra na cidade em mutação (a gentrificação, as ruínas, as superfícies que contam uma memória urbana) imagens como que vistas pelos olhos dos amigos Ghirri, Guerzoni, Bizzarri. Manda ao artista estas fotografias que parecem quadros dele, coisa que continua a fazer todas as vezes que viaja. Guerzoni e Bizzarri tornam-se afectuosos organizadores ou ensaístas. Desenvolve-se assim uma história de que esta exposição mostra alguns vislumbres provisórios.

 

Alguns de nós conheceram Paolo Barbaro ainda no outro milénio, em 1996, quando a associação Abril em Maio organizou duas exposições bem diferentes de Giuseppe Morandi: «Quem trabalha a terra na Baixa Padana» (na Galeria da Mitra), e «Vigésimo Primeiro Verão» (na ZDB, então para os lados do Cais do Sodré). Foram as duas primeiras exposições de Morandi em Lisboa. Paolo Barbaro já tinha escrito sobre a obra de Morandi, fotógrafo não profissional de origem camponesa. Veio participar em colóquios, em conversas e um texto seu está no catálogo. Chama-se «Histórias de um corpo».

Entre muitas outras coisas, diz: «Assim, uma vez acabada, para Morandi, a legibilidade existencial do campo, restam as pessoas, os seus espaços e as suas representações, finalmente os seus corpos a contar».

Alguns de nós encontraram-no (às vezes tocava guitarra), na festa anual da Lega di Cultura de Piadena, na casa do Micio e no seu pequeno bosque. Trabalhava na Universidade de Parma, precisamente no departamento de fotografia, que veio a instalar-se na Cartuxa de Parma (não é a do Stendhal…, mas fica no meio do campo), que também alguns de nós visitaram, maravilhados pelo trabalho de recolha, arquivo, pensamento que lá se constrói.

O Paolo tem vindo várias vezes a Lisboa, quase sempre com o Morandi e o Micio, a propósito de exposições de fotografia, que agora têm sido na Casa da Achada. A sua vinda em 2012 marcou (quase em silêncio, diga-se – «dissimulações»?) o arranque dum trabalho que foi continuando, sempre com Franco Guerzoni na cabeça, um interlocutor, e a partir de Lisboa.

Num breve encontro com Franco Guerzoni, há uns tempos já, no seu atelier de Modena, falámos desta exposição e foi difícil escolher qual seria a questão central que ela poria: «Trabalho (artístico)» (que seria tema de um ciclo que se fez na Casa da Achada-Centro Mário Dionísio)? «Ruínas»? Nos dois casos: «transformações», «mutações» se se quiser. Que incluem (via Paolo Barbaro) a de Lisboa. Estas duas questões talvez se juntem na exposição. E provavelmente de maneiras inesperadas.

É para nós impossível não referir isto a propósito («isto anda tudo ligado», de facto) – e não agradecer (se é que estas coisas se agradecem): o Paolo e a Claudia Cavatorta (que também faz a sua vida na Cartuxa de Parma), vieram semanas antes do ciclo «Para que serve a memória» para trabalhar, por proposta sua. Catalogaram umas centenas de máquinas fotográficas do Maçariku, fundador da Abril em Maio e da Casa da Achada, desaparecido dois anos antes. Passaram assim essas suas férias.

Foi, da parte deles, um trabalho (especializado) de memória, resultado da preocupação – que também é nossa – com o «para que serve» e com o ligar pontas, pessoas, ideias, objectos e fortalecer as relações que aconteceram e vão acontecendo. Mesmo quando não é tão fácil como pode parecer.

Casa da Achada-Centro Mario Dionisio

Ciclo Outra sociedade – À volta das ideias de Ivan Illich

27 de Junho de 2018

Vai começar em breve um ciclo para pensarmos a sociedade de hoje, partindo das ideias de Ivan Illich. Aqui deixamos o programa de Julho. O ciclo continua até Setembro. Como é uso na casa, todas as sessões são de entrada livre.

ciclo
Outra sociedade – à volta das ideias de Ivan Illich
JUL-AGO-SET 2018
na Casa da Achada

Vivemos, hoje, no quadro de um capitalismo global que alguns qualificam de «enlouquecido». Politicamente marcado pelas orientações ditas neoliberais, os seus modos de produção e de consumo têm vindo a engendrar o agravamento das modalidades de exploração do trabalho, bem como das desigualdades sociais. Para compreender e discutir criticamente a natureza e amplitude da crise civilizacional com que estamos confrontados vamos «revisitar» as ideias de Ivan Illich (1926-2002) e a sua crítica radical das sociedades industriais  da segunda metade do século XX. Partindo das temáticas que ficaram célebres pela desmontagem crítica de Ivan Illich, vamos abordar os temas da saúde, dos transportes, do ensino e das alternativas ao desenvolvimento.
Este ciclo é organizado pela Casa da Achada – Centro Mário Dionísio em colaboração com a APCEP – Associação Portuguesa para a Cultura e Educação Permanente.

EM JULHO:

conversa
A obsessão da saúde perfeita
Limites e efeitos perversos da medicalização das sociedades.
A mercadorização da saúde. Os doentes permanentes.
«Nos países desenvolvidos a obsessão da saúde perfeita transformou-se num factor patogénico predominante. O sistema médico, num mundo impregnado pelo ideal instrumental da ciência, cria constantemente novas necessidades de cuidados. Mas quanto maior é a oferta de saúde, mais as pessoas respondem que têm problemas, necessidades, doenças. Cada um exige que o progresso ponha fim aos sofrimentos do corpo, mantenha durante o maior tempo possível a frescura da juventude e prolongue a vida até ao infinito. Nem velhice, nem dor, nem morte.» Ivan Illich
Abrimos o ciclo «Outra sociedade – À volta das ideias de Ivan Illich» com uma conversa em torno da saúde na sociedade de hoje, partindo desta e de outras provocações de Illich. Uma conversa aberta com a participação de pessoas relacionadas de diversas formas com a questão da saúde.
Sábado, 7 de Julho, às 15h30

apresentação do livro
Para uma história das necessidades, de Ivan Illich
Jorge Leandro Rosa vem apresentar-nos o livro de Ivan Illich «Para uma história das necessidades», reeditado recentemente pela editora Sempre em Pé.
Sexta-feira, 13 de Julho, às 18h30

conversa
A bicicleta – utensílio convivial
«A bicicleta é um invento da mesma geração que criou o veículo a motor, mas as duas invenções são símbolos de avanços feitos em direcções opostas pelo homem moderno. A bicicleta permite a cada um controlar o emprego da sua própria energia; o veículo a motor, inevitavelmente, torna rivais entre si os utentes, por causa da energia, do espaço e do tempo. No Vietname, um exército hiperindustrializado não conseguiu derrotar um povo que se desloca à velocidade da bicicleta. Isto deveria fazer-nos meditar: talvez a segunda forma do emprego da técnica seja superior à primeira.» Ivan Illich
Sábado, 28 de Julho, às 15h30

oficinas
Bicicletas: Artes, arranjos e caminhos
Arranjar a bicicleta, com Jorge Semedo 1 e 8 de Julho
Fazer pequenas biciclARAMEtas, com Rui Marques 15 de Julho
Criar autocolantes com novos sinais de trânsito 22 de Julho
Dicas para dar ao pedal 29 de Julho
Domingos das 15h30 às 17h30

ciclo de cinema ao ar livre
Modos de habitar
Enquadrado no ciclo «Outra sociedade – à volta das ideias de Ivan Illich», que revisita as ideias de Ivan Illich (1926-2002) e a sua crítica radical das sociedades industriais da segunda metade do século XX, a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio propõe para este Verão um ciclo de cinema ao ar livre sobre MODOS DE HABITAR.
Projectados entre dois prédios que em breve deixarão de ter vizinhos para dar lugar a mais alojamento local, os filmes escolhidos (ficções e documentários) são uma pequena amostra de diferentes modos de habitar. Da burguesia e da classe operária, dos bairros do centro e da periferia, das crianças e dos velhos, de ontem e de hoje. E, quem sabe, de amanhã.
Habitamos a cidade, habitamos o campo, mas também habitamos as ruas, os espaços devolutos, as casas e os cemitérios. E o que fazemos com esses espaços? E com o tempo que neles passamos?
O apartamento de Billy Wilder 2 de Julho
Nova Iorque fora de horas
de Martin Scorcese 9 de Julho
Quando o rio se enfurece
de Elia Kazan 16 de Julho
A caixa
de Manoel de Oliveira 23 de Julho
Arena
de João Salaviza 30 de Julho
Segundas-feiras, às 21h30

O ciclo continua em Agosto e Setembro.

Zé d’Almeida ou Zé Dalmeida

29 de Maio de 2018

Não mais oficinas de barro ou de cartoons, de papagaios que voam, de amigos em cada esquina, imaginadas e feitas por ele, aqui na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, sempre com vontade de ir para a rua e encontrar outras gentes. Mesmo quando já estava doente. Mas gostava e insistia, sempre que lhe era possível.

Sem falar na colaboração na Leitura Furiosa, onde as ilustrações que fez foram várias vezes em barro. Por isso, em 2013, foi ele que, precisamente em barro, imaginou, a pedido, aquilo a que se chamou o «logotipo» dessa invenção internacional e que durou uns anos.

Com a sua morte, pelo menos para alguns, o deserto aumenta de dimensões. Sobretudo para quem o conheceu e às suas invenções gráficas na Gazeta da Semana, dirigida por João Martins Pereira, e no fabrico do boletim do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, na segunda metade dos anos 70 – coisa esquecida, como outras.

Para ele e para nós, o humor era um trunfo. Sempre pouco preocupados com aquilo que se tem chamado o «politicamente correcto». É que quer ele quer nós queríamos mesmo que o mundo mudasse.

O Zé d’Almeida ofereceu tempo, trabalho, ideias e obras suas à Casa da Achada-Centro Mário Dionísio, porque achava que era normal que ela pudesse existir e sobreviver.

Só podemos dizer agora: obrigado (de verdade) e até sempre, é claro.

E agradecer que tenha sido escolhida esta Casa para umas tristes horas de velório, das 16h às 22h de 30 de Maio de 2018.

ANTÓNIO LOJA NEVES

29 de Maio de 2018

O António Loja Neves foi-se, quando julgávamos que, afinal, ele seria eterno. Enganámo-nos.

Pelo menos para alguns (que ainda existem), não para todos (e, se calhar, ainda bem), é o trágico alargar de uma espécie de deserto que se tem vindo a instalar, de várias maneiras.

António Loja Neves existiu. Existe. Queremos que seja para todo o sempre.

Fez escolhas, aprendeu muitas coisas, e gostava mesmo de passar aos outros o que aprendia e o que ia fazendo a partir do que aprendia e vivia (não se aprende sem viver), pensando nas coisas contraditórias que aprendia, e querendo fazer outras depois.

Colaborou, na medida do possível, em actividades da Casa da Achada. Apresentando filmes, mas não só. Até vimos aqui um filme seu, ainda não terminado, chamado «Silêncio», sobre a Guerra Civil de Espanha por cá.

É impossível esquecer a intervenção que fez aqui, em 2012, numa maratona de intervenções, a que chamámos «Máscaras, prisões, liberdades e cifrões» e que terminou assim:

«Bom, António – estou a dizer para mim próprio –, vieste de Setúbal a correr, em excesso de velocidade, para vir cá só dizer isto e para te ires embora a correr a seguir, perigosamente em excesso de velocidade? (estava a trabalhar em Setúbal e interrompi…). Não, eu não vim cá só para falar, vim cá porque achei que era importante estar convosco, discutir convosco, participar deste núcleo decidido, para que novas ideias se desenvolvam e possamos, ancorados neste espaço nuclear, dar a volta nestas questões todas, tão extremas para as nossas vidas e, sobretudo, para a vida dos que nos sucederão no nosso país – a que desejam retirar a bússola, roubar o norte. É importante que a gente comece a driblar os acontecimentos que os missionários insistem serem fatais, como dos dogmas, e redefinirmos que o norte é “ali”, que o nosso norte é o que indicia novas ideias, uma renovada e fraterna sociedade. E a cultura – afinal foi sempre do que falámos… de cultura! – é ferramenta essencial para tal projecto. Até eles sabem disso, por isso a agridem e a sufocam actualmente. Porque um povo culto não se deixa ludibriar!»

A grande ligação com ele veio, para alguns de nós, pelo entusiasmo que teve na fundação da Abril em Maio, em 1994. Só não foi fundador «oficial» porque os múltiplos afazeres não o deixaram chegar a tempo ao notário…

Temos uma tristeza muito grande com esta morte. É o desaparecimento de alguém que percebia o que nos move, sempre disponível para o que temos querido fazer. Nós e ele.

É um lugar-comum dizer, mas aqui e agora é muito mais do que isso: Até sempre, camarada!

JÚLIO POMAR

23 de Maio de 2018

Faltam-nos as palavras para deixar aqui uma nota sobre partida do sócio fundador Júlio Pomar, que já em 1945 Mário Dionísio adivinhava vir a ser um grande pintor. Um abraço aos mais próximos.

 

André Spencer e F. Pedro Oliveira para Casa da Achada - Centro Mário Dionísio | 2009-2020