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Para que serve a memória

4 de Agosto de 2016

para que serve a memória - pequeno

É o tema que nos vai ocupar na última semana de Agosto. Lembrando MK (Maçariku , Vitor Ribeiro – ver mais aqui)  que está ao centro da grande relação com a Lega di Cultura di Piadena, nascida há quase 50 anos, que alguns de nós conhecem quase há 20, que vai estar connosco uma vez mais na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, um grupo para quem a memória foi sempre, de uma forma ou de outra, um tema.

É um tema que nos preocupa também. Uns dirão «não serve para nada», outros «para tudo». Mas o que nos parece importante tratar é: que e quem lembrar? que e quem é esquecido? Como fazer das nossas cabeças «arquivos» sem cotas mas vivos? E para fazer o quê com eles? Por exemplo, será possível pegar em dramáticos e controversos problemas como o trabalho ou as fronteiras, como se fosse pela primeira vez?

A fotografia é entre muitas outras coisas mais, um trabalho de memória – durante ou depois.

GIUSEPPE MORANDI fotografa há 60 anos talvez. Começou pelos camponeses da sua terra, na planície do Pó, Itália, que já não há. Foi parar nos últimos tempos aos imigrantes de vários continentes que agora lá vivem e cumprem no mesmo lugar os poucos trabalhos que ainda restam. Irrita-se porque hoje as pessoas dizem gostar mais das suas fotografias do passado do que das do presente…

No dia 25 de Agosto, às 18h, inaugura, com visita guiada, uma exposição antológica deste fotógrafo, autodidacta, que expõe em Portugal desde 1996. É a sua segunda exposição na Casa da Achada. Título da primeira: «Deus no telhado e os novos anjos», com que festejámos o 25 de Abril de 2012.

Às dezenas de fotografias a preto e branco por ele escolhidas e por Paolo Barbaro (professor de História da Fotografia na Universidade de Parma e que tem acompanhado o trabalho de Giuseppe Morandi sobre o qual muito escreveu), acrescentam-se, por proposta deste (para ver claro, para pensar), 6 fotos a cores de Nancy Goldring (Urban Amnesia), conhecida fotógrafa americana, desconhecida em Portugal.

E vamos projectar os dois últimos documentários de Giuseppe: uma encomenda (o que é raro na sua obra), Il faló di Pescarolo, sobre o Carnaval que ainda se faz em Pescarolo (26 de Agosto, às 17h); um documentário sobre Peto (que estará connosco) – e o seu trabalho, o seu lazer, o canto (27 de Agosto, às 17h).

Com Giuseppe Morandi, e do seu inseparável cúmplice, Gianfranco Azzali (Micio), ambos fundadores da Lega di Cultura di Piadena, estarão cá outros fundadores da Lega (Peto, Bianca), colaboradores permanentes e amigos (Bruno Fontanella, Leo, Jagjit, Mario Agostinelli, Peter Kammerer, Graziella Galvani, e outros).

BRUNO FONTANELLA, pedreiro reformado, vive em Piadena, só fala dialecto e canta desde que nasceu: canções de trabalho e de festa, canções populares de luta (anarquistas, socialistas, comunistas). Muitas delas desaparecerão com ele. Por proposta de Peto, registaremos (em boa qualidade) o seu «cancioneiro» que não é igual a todos os outros. Serão 3 concertos, todos diferentes (26 de Agosto, às 22h, 27 e 28 de Agosto, às 18h30) em que Peto e Leo o acompanharão e também ouviremos outras vozes: de Jagjit (indiano, mungidor de vacas em Piadena, como foi Micio noutros tempos, muito fotografado por Morandi), do Coro da Achada, das Adufe & Alguidar e dos Frente Popular, cada um à sua maneira, na memória e na intervenção.

Mas, se calhar, só a falar é que a gente se entende. O que não é difícil com estes «parceiros».

Estão agendadas três conversas, com gente da Lega di Cultuta di Piadena ou trazida por ela, e gente de cá para quem a memória (mas que memória?) conta e se preocupa com o presente:

Para que serve a memória? Com respostas de quem a «arquiva» ou de quem vive dela ou com ela (26 de Agosto, às 18h): participam Claudia CavatortaNancy Goldring, Paolo Barbaro, Pedro Prista Monteiro e outros.

Outro trabalho, trabalho outra vida, continuação de um debate iniciado este ano em Piadena, partindo nós aqui de um texto fabricado na Casa da Achada e das ideias de Mario Agostinelli, ex-secretário geral da CGIL-Lombardia que abandonou, fundador do movimento Unaltralombardia, etc. Como é que a memória pode ou não pode entrar aqui? (27 de Agosto, às 15h): participam Mario Agostinelli, Micio, Peto e outros.

Abolir fronteiras, separar as águas, peça importante do actual ciclo de 3 meses da Casa da Achada, Fronteiras fora e dentro, a que Peter Kammerer, alemão que escolheu viver em Itália, depois de 1968, professor aposentado de sociologia da Universidade de Urbino, que muitas vezes esteve connosco, dará o pontapé de saída. Como é que a memória pode ou não pode entrar aqui? (28 de Agostom às 15h): participam Mario Agostinelli, Peter Kammerer e outros.

E, no dia 29, às 21h30, segunda-feira, será Peter Kammerer a apresentar o filme Una vita violenta (1962, 106′), de Paolo Heucsh e Brunello Rondi, com argumento de Pasolini, incluído no nosso ciclo de cinema ao ar livre sobre Fronteiras. Pasolini, muito lido, visto e estudado por ele e grande referência para a Lega di Cultura di Piadena

Serão distribuídos textos e folhas de sala e uma cronologia das relações com a Lega e estas pessoas que nasceram antes de a Casa da Achada existir (disponível aqui).

Estarão em exposição algumas máquinas fotográficas de colecção de Vítor Ribeiro (Maçariku), um espólio que a Claudia Cavaroria e o Paolo Barbaro se dispuseram a catalogar.

PARA QUE SERVE A MEMÓRIA é para nós uma oportunidade única: ver, ouvir, falar, debater com pessoas com experiências completamente diferentes das nossas e com quem durante 20 anos, nalguns casos, temos feito trocas raras. Terá sido uma forma simples de abolir fronteiras. O que foi muito alimentado e facilitado por MK que agora já não poderá participar. Esta será também uma maneira de manter viva a sua memória.

Mário Dionísio: os primeiros 100 anos

29 de Julho de 2016

Decorreu no passado sábado, dia 16 de Julho, uma série de actividades a que a Casa da Achada- Centro Mário Dionísio intitulou Os primeiros 100 anos, comemorando o centenário de Mário Dionísio no dia em que ele faria precisamente 100 anos. As actividades começaram cedo, a meio da manhã, com um “quebrajum” para não começarmos de estômago vazio. Seguiram-se as primeiras oficinas de t-shirts, jogos (“Gafanhoto Caracol”, um jogo de tabuleiro criado pela Casa e que também esteve à venda, mas também xadrez) e leituras. Leram-se poemas, excertos de entrevistas a Mário Dionísio, partes da sua Autobiografia e d’ A Paleta e o Mundo. Gente foi chegando ao longo do dia, ocupando as ruas da Casa da Achada e as sombras no jardim onde ficou situado o bar que não parou até ao fim da festa.

Às 16h o coro da Achada fez um espectáculo a que chamou Não se pode viver sem utopia, uma apresentação que cruzou canções com textos de Mário Dionísio e de outros, marcando o centenário do seu nascimento e convocando as nossas inquietações actuais (a guerra, os refugiados, o trabalho, a perda de direitos sociais, o controlo dos media, a glorificação do dinheiro), pensando sempre em formas possíveis de transformar a realidade e relançando uma ideia de Mário Dionísio, a de que não podemos viver sem utopias e é necessário imaginar outras formas de viver em comum.

Depois do espectáculo do coro, continuaram as oficinas de fazer pins e t-shirts, e constantes leituras feitas por muita gente – umas preparadas, outras de improviso, animando a rua com palavras e dizeres. Palavras escritas também em cartazes, sugeridos por poemas ou ideias de Mário Dionísio.

Às 18h houve o lançamento da nova edição da Poesia Completa de Mário Dionísio, um título que se justifica por incluir toda a poesia editada do autor, mas também por fazer referência à sua Poesia Incompleta, uma edição entretanto esgotada. Com a particularidade de incluir uma tradução de Le feu qui dort (escrito por Mário Dionísio em francês) para português por Regina Guimarães. João Rodrigues apresentou a edição e explicou como foi feita. Um representante da Imprensa Nacional -Casa da Moeda, Rui Carp, responsável pela edição, explicou a sua integração na lógica da instituição e o director da colecção de poesia, Jorge Reis-Sá, explicou a importância de disponibilizar obras tão importantes como a de Mário Dionísio. Jorge Silva Melo, autor do prefácio da edição, fez uma profunda intervenção sobre o sentido da poesia de Mário Dionísio (poesia escondida, poesia exilada, poesia do quotidiano, reflexão sobre o tempo e a sua passagem) e a sua relevância na literatura do século XX. Poesia Completa vendeu-se ao longo da tarde, a preço especial de lançamento. E muita gente comprou e levou para casa.

Mais tarde, pelas 19h, começou uma série de intervenções Mário Dionísio – por onde é que eu lhe pego, intervenções livres ao microfone, na rua da Achada, de muita gente dizendo como conheceu Mário Dionísio (o homem) ou a sua obra, e porque lhe importa ela, que ideias descobriu. A variedade de intervenções permitiu compreender a diversidade e a riqueza do pensamento, da vida e da obra de Mário Dionísio, capaz de tocar tanta gente e de formas tão diferentes. E até houve gravações enviadas por gente que não podia estar presente, mas queria deixar a sua mensagem à Casa da Achada.

Em transmissão (quase) contínua, esteve um programa da Rádio Paralelo que dedicou o dia inteiro a Mário Dionísio, marcando a ocasião, com entrevistas, poemas, canções. O programa passou também ao mesmo tempo na Rádio Manobras.

Para além das edições da Casa, muitos outros objectos estiveram à venda numa pequena feira, entre livros, roupas, pinturas e outros objectos raros.

Também se aproveitou para pedir apoios financeiros – afinal também é preciso dinheiro para continuar a actividade da Casa da Achada – para a reedição d’A Paleta e o Mundo, que é uma das prioridades actuais da associação.

Em exposição esteve um quadro restaurado recentemente com contribuições de amigos. A mostrar que vale a pena o trabalho (colectivo) de preservação da memória – neste caso da pintura de Mário Dionísio.

E as leituras de poesia não pararam – foi bonito ouvir tantas vozes diferentes a dar novos sentidos àquelas palavras.

No fim do dia, entre risos e aplausos, sorteou-se o tapete de trapilho (à tarde estiveram miúdos e graúdos a vender rifas para isto), uma bela obra feita a partir de um quadro de Mário Dionísio, cuja pintura continua a inspirar muitos fazeres diferentes ali na Casa da Achada.

Tudo isto com tempo para uma conversa, um jogo, uma cerveja, uma sangria, uma tarte ou uma bifana. Um dia pleno de sol, mas também de poesia, arte, palavra, pintura e gente amiga da Casa da Achada (ou que a conheceu pela primeira vez e ali se “amigou”).

Apetece pensar que Mário Dionísio teria gostado, aos cem, de ver esta gente junta, a conviver e empenhada em transformar a realidade, com ele.

O Centenário de Mário Dionísio em Lisboa, em Vila Franca de Xira e na Guarda

7 de Julho de 2016

16 de Julho - pequeno

Mário Dionísio nasceu a 16 de Julho 1916, há 100 anos. A Casa da Achada – Centro Mário Dionísio quer lembrá-lo todos os dias, não apenas nesse dia. Mas hoje também.

No sábado, 16 de Julho, durante todo o dia, entre as 10h e as 22h, haverá actividades para todos na Casa e no Largo da Achada: oficinas, jogos, leitura de poemas, canções, comes e bebes. Estão todos convidados a vir passar este dia connosco; a levarem para casa um exemplar da Poesia Completa de Mário Dionísio, acabadinha de editar pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda; a verem o espectáculo «Não se pode viver sem utopia», apresentado pelo Coro da Achada; a pegarem no megafone e contarem por onde é que pegam em Mário Dionísio, o que vos interessa nele, porque é que precisamos dele hoje, passados 100 anos.

Neste dia, fazemos saltar para a rua as nossas edições e mais uns tantos livros e objectos raros, sorteamos um tapete feito a partir de um quadro de Mário Dionísio e continuamos a campanha para a reedição d’A paleta e o mundo, actualmente esgotada. Não faltarão formas de ajudar a Casa da Achada a continuar o seu trabalho de tratamento e divulgação do espólio literário, artístico e pessoal de Mário Dionísio. Em exposição estará o quadro para cujo restauro pedimos apoio em Dezembro do ano passado, no fim-de-semana «Já não há papel», que já está restaurado!

Venham passar este dia connosco, ler um poema, cantar uma canção, estampar uma t-shirt, fazer um pin, jogar Gafanhoto caracol, ouvir uma entrevista, comprar uma serigrafia, comer, beber, conversar. Porque 100 anos é pouco tempo.

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No Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, pode ser visitada a exposição «Passageiro clandestino – Mário Dionísio 100 anos». Com a curadoria de António Pedro Pita, a exposição pretende homenagear o poeta, artista e pensador, focando-se, sobretudo, na documentação e interpretação da intervenção de Mário Dionísio enquanto  teórico do neo-realismo, o mais relevante desta corrente e um dos mais importantes teóricos da arte do século XX.

A exposição pode ser visitada de terça a sexta-feira das 10h às 18h, sábado e domingo das 10h às 19h, até ao 26 de Fevereiro de 2017.

No sábado, dia 9 de Julho, às 16h, no Auditório do Museu do Neo-Realismo, acontece o colóquio «Mário Dionísio Intelectual» com João Madeira, David Santos e Luís Augusto Costa Dias. Também é apresentado o catalogo da exposição.

Na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda, serão inauguradas duas exposições: «Mário Dionísio – Vida e obra» – composta por 13 painéis biográficos que dão conta da vida de Mário Dionísio através de documentos, textos, fotografias e outras imagens – e «Mário Dionísio – Pintura», onde se podem ver algumas das suas obras pictóricas. A inauguração está marcada para a terça-feira, 12 de Julho, às 18h, e será acompanhada pelo colóquio «Idade terceira» de Regina Guimarães.

A acompanhar estas exposições, estão marcadas ainda duas sessões: a conferência «A invenção do concreto – Mário Dionísio e o realismo como problema» com António Pedro Pita na quinta-feira, 14 de Julho, às 18h e a projecção de 2 horas na vida de uma mulher de Agnès Varda no sábado, 23 de Julho, às 21h15.

Leitura Furiosa 2016

20 de Junho de 2016

A Leitura Furiosa destina-se aos que, sabendo ler, estão zangados com a leitura – crianças e adultos, homens e mulheres, empregados e desempregados, portugueses e estrangeiros.

Podem ler os textos feitos em Lisboa:

E uma excepção, fora de Lisboa, por motivo de férias da escritora:

  • «A Bica do Povo» de Filomena Marona Beja com um grupo da Bica do Povo, em Caldas de Arêgos, ilustrado por Pierre Pratt.

A sessão pública, no dia 12 de Junho, contou a leitura de textos de Lisboa, Caldas de Arêgos, Porto e Amiens pelos actores Andresa Soares, Bruno Humberto, F Pedro Oliveira, Inês Nogueira, João Cabral e Sofia Ortolá. Fotografias da sessão por David Lopes.

 

 

André Spencer e F. Pedro Oliveira para Casa da Achada - Centro Mário Dionísio | 2009-2015