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Como foi o 25 de Abril / 25 Aprile na Casa da Achada

14 de Maio de 2018

Este ano festejámos um duplo 25 de Abril, entre Itália e Portugal. 25 de Abril em Itália também é feriado. Foi em 1945, como em Portugal em 1974, o princípio do fim de uma ditadura e de uma guerra. Em Itália, a Segunda Guerra Mundial. Juntar portugueses e italianos e contar como foi contraria o esquecimento e faz pensar.

No sábado 21 de Abril inaugurámos a exposição de fotografia O DONNA DONNA (Ó MULHER MULHER), de Giuseppe Morandi, e lançámos um DVD com o documentário de Peter Kammerer e Hans Goetze Oxenius, CONHECES ESTA TERRA?, de 1977, sobre a intervenção de associações urbanas e campesinas no norte de Itália: as suas práticas, as suas ideias, as suas canções nos finais dos anos 70 do século XX, na altura em que em Portugal se estava a sair do «PREC». Uma ideia diferente de Veneza e da Planície do Pó para quem as vê apenas como destinos turísticos.

À projecção seguiu-se uma conversa sobre o filme e as questões que pôs: o papel das associações, os instrumentos de intervenção, o conceito de cultura, o que vem a ser «mudar o mundo», o que mudou e não mudou em 40 anos. Na conversa estiveram Gianfranco Azzali (Micio) e Giuseppe Morandi, fotógrafo e autor da exposição de fotografia, ambos da Lega di Cultura de Piadena (uma das associações que é tratada no filme) e também alguns amigos da CACAV – Círculo de Animação Cultural de Alhos Vedros.

Na segunda-feira 23 de Abril ao fim da tarde, em vez da habituais leituras do ciclo «Paleta e o Mundo», Mariana Pinto dos Santos deu-nos pistas para ver a exposição de Morandi.

No dia 24 estivemos «à mesa com Peter Kammerer», autor do posfácio da última edição de MANUSCRITOS de Marx (1844). Kammerer falou-nos sobre os MANUSCRITOS, sobre a sua actualidade singular e urgente, e sobre o fio vermelho que percorre e une este livro com toda a obra de Marx.

No 25 de Abril houve uma grande festa com actuação do coro da Achada e conversa sobre o 25 de Abril português e italiano, nas vozes de cá e de lá (com Micio, Morandi, Tamino, Auretta, Kammerer, Graziella, etc.).

Nesse dia inaugurou-se também a exposição que dedicámos a Ângelo Teixeira (E ASSIM PERSPECTIVEI O SENTIDO DOS DIAS), com fotografias, cartazes, letreiros, os mais variados objectos e a edição de um livro seu de poemas, e lançámos ainda uma colecção de autocolantes ARTE E REVOLUÇÃO feitos por 25 artistas diferentes: Alain Campos, Amarante Abramovici, André Ruivo, Banlieue Banlieue, Bárbara Assis Pacheco, Beatriz Bagulho, Cristina Reis, dan, Dedo Mau, Francisca Lima, Joana Rodrigues, João Alves, João Bonito, José Smith Vargas, Marta Caldas, Marxa, Nadine Jacinto Rodrigues, PAM, Paulo Barrosa, Pedro R, Pedro Zamith, Pierre Pratt, Sara e André, Sónia Gabriel e Tinta Crua.

A terminar a semana, no dia 29 de Abril, projectámos o documentário NÓS, OPERÁRIAS DA SOGANTAL de Nadejda Tilhou e conversámos sobre o que mudou na vida das mulheres depois do 25 de Abril…

25 Aprile / 25 de Abril

23 de Abril de 2018

A Festa da Lega di Cultura di Piadena – 23, 24 e 25 de Março de 2018

23 de Abril de 2018

Fomos à Festa de 2018. Éramos sete vindos de Lisboa, mais uma amiga que já lá estava. Sete mais um, dá oito. Mas encontrámos muita gente, amigos velhos, recentes e por fazer. Gente que deseja a transformação do mundo e é capaz de imaginar uma sociedade sem desigualdade de condição, sem classes, sem opressões, sem fronteiras.

Utópicos e práticos, revoltados e apaixonados, gente que luta e não quer esquecer os combates de ontem e as canções que acompanharam essas batalhas. Gente que quer mudar a vida presente e o mundo correspondente. Gente que ali se junta, na casa de Gianfranco Azzali, o “Micio” – ele abre as suas portas a amigos de toda a Itália e de todas as nacionalidades. Junta-se a conviver, a falar e a comer, a beber e a cantar, a debater e a partilhar ideias, objectos, gestos, ferramentas para as lutas que virão. A gente ajuda a fazer a festa e a comida, à mesa ou no belo pequeno bosque da casa do Micio.

No sábado de manhã viram-se dois filmes, um sobre o Peto, pedreiro e construtor, para além de cantor popular, um filme simples, rude e belo, com um ponto de vista. Depois o documentário de Peter Kammerer realizado em 1977 para a televisão alemã, “Kennst du das Land?”, que nós traduzimos, editámos e levámos em DVD, com legendas em francês, português e italiano traduzidas aqui em Lisboa.

No sábado à tarde, abriu-se um debate. Debateu-se este ano “…a menos que o poder mude a sua natureza…”, um tema difícil sobre as dominações de hoje e as formas de acabar com elas, propondo e praticando outras formas de lutar e viver. O que é o poder, o que são os poderes? Quem o possui? Quem o usa? Como o usa? Quem manda? E porquê? Porque destrói o capitalismo a terra e degrada as relações humanas? Como limitar o poder dos capitais, dos estados, dos impérios? E o do patriarcado? Mas são só esses, os poderes? Como acabar com eles? Como mudar a sua natureza? Queremos nós “o poder”? Tantos relatos, tantas perguntas.

Ao fim da tarde, uma visita desagradável de uma inspecção estatal, que diz que não se pode comer, beber e fazer festa em liberdade no espaço privado que pertence a Gianfranco Azzali. Uma festa com décadas, entre mil amigos, não comercial. Indignação de muitos, que foram cantando para espantar os senhores inspectores. A gente discute: “Se houver alguma multa, haverá solidariedade”. A festa continua. E continuou.

No domingo, depois de uma emotiva homenagem à Ughetta, grande amiga da Lega di Cultura que morreu este ano, veio a festa com comida, bebida, grupos musicais e coros lançando canções socialistas, comunistas, anarquistas, populares e eruditas, de ontem e de hoje, palavras, trocas de ideias e de abraços. Com umas 1500 pessoas a passar por ali. É impossível contar, porque as amizades se cruzam, os cantos se espalham e misturam, e há emoções fortes que não se conseguem traduzir. E porque a Lega di Cultura de Piadena, fundada em 1967, é uma associação de acção cultural e política, com seres humanos que querem poder humanos ser.

Trazemos para Lisboa mais oxigénio, horizontes mais largos, ideias para pôr em acção, práticas para pensar a acção cultural, um desafio para escutar os outros, ter esperanças e desesperanças, resistir e não desistir da procura incessante de outras formas de viver. E trouxémos também um bocadinho de queijo.

No dia seguinte, saímos do trabalho para almoçar com a urgência de nos sentarmos num banco da avenida, ao sol, para repensar na festa e no que acontece quando a festa acaba. O que é que se propaga pelos outros 362 dias do ano?

A festa é o encontro entre muita gente com mais ou menos as mesmas preocupações. É a resistência ao estado das coisas através  do canto (é potente quando quinhentas pessoas cantam juntas canções de luta!), dos debates, dos filmes, dos espectáculos. É a generosidade, a entreajuda entre dezenas de pessoas para fazer a festa (esta, outra forma de resistência). É o comer, o beber, o cantar. Cantar muito. O estar. É uma multidão na tenda, no bosque, batuques, bandas, galos e galinhas, miúdos a jogar à bola, magotes de gente a cantar, outra e outra vez. No fim, é a conversa que se prolonga, um copo de «bianchino», um cigarrinho sem horas marcadas.

E depois?
Depois, é esta urgência de nos sentarmos a pensar ao sol, de nó na garganta, sobre como esta festa é importante. De perceber que entre a festa da Lega di Cultura di Piadena e a Casa da Achada há uma ligação apertada. Que aqui também há encontro, generosidade, entreajuda, canto, conversa e discussão e muita amizade.  E que a festa, afinal, continua aqui, ou, pelo  contrário, que a festa é aqui e que continua lá com mais gente.

Pensar em conjunto, viver, conviver, mas também fazer, fazer mais por mundo mais justo e por uma vida mais plena para todos. Será este um dos sonhos desta festa? E cantar.

«Agora falo outra língua»

9 de Março de 2018
Está quase a acabar o ciclo «Agora falo outra língua» que pôs a Casa da Achada e quem por aqui passou a reflectir sobre a língua, a tradução, a questão da comunicação e da incomunicabilidade…

Tivemos o prazer de conversar com João Ferreira Duarte sobre o tema da ideologia em tradução e com Frei Bento Domingues e João Paulo Esteves da Silva sobre a Torre de Babel,

falámos de actualidade e de Catalunha a partir da língua catalã num sábado animado por um grande debate,
tivemos oficinas de tradução (traduções intraduzíveis, tradução sem língua oficial, tradução para legendagem e  para dobragem),
passámos pelas oficinas de introdução às línguas mais exóticas (mirandês, chinês, hebraico…) para chegarmos ao português e às suas técnicas de expressão explicadas e comentadas por Maria João Brilhante, que se inspirou nos apontamentos das aulas de Mário Dionísio.

Em Março divertimo-nos a ler contos nos vários sotaques de Portugal e assistimos a um concerto do Coro da Achada, que cantou canções em muitas línguas diferentes. Até numa língua inventada.
Às segundas-feiras temos visto filmes de vários autores e épocas, reunidos no ciclo «Línguas de perguntador». E, até ao fim de Março, ainda vai haver mais sessões de cinema, leitura, conversas, neste ciclo «Agora falo outra língua».

Por estranhas línguas corre o mundo, e é nesse mundo que as pessoas dão às suas línguas em ruidosa confusão (de engano), à procura da palavra exacta, à procura da mentira justa. Línguas que separam, constroem, pensam, são pensadas, unem; línguas que são a representação do poder, mas também da resistência. Falas quotidianas, as mesmas onomatopeias de cansaço ou surpresa, músicas e proclamações, pregões, ameaças e afagos, essa linguagem de quem fala todas as línguas.
Mas, se pior que não gritar é gritar só porque um grito algures se levanta, é preciso pensar o grito, e gritar o pensamento. A língua pode ser pensada, debatida, experimentada, traduzida, cantada, falada.  Foi a isso que nos propusemos nestes três primeiros meses do ano na Casa da Achada.

Além das actividades relacionadas com o ciclo, tivemos também alguns extras.
Por exemplo, uma hilariante conversa com o matemático José Paulo Viana que trouxe uma pitada de ciência a esta casa de artes e que falou de «alguns números pela vida fora, incluindo um porco fardado de almirante».
 
Inaugurámos também a «Caça do Livro» com Ariana Furtando – que acontece todos os domingos de manhã, durante a qual convidamos crianças de todas as idades a usufruir da Biblioteca Pública da Casa da Achada, caçando livros e inventando histórias…

 

André Spencer e F. Pedro Oliveira para Casa da Achada - Centro Mário Dionísio | 2009-2017