Ligações rápidas

Horário de Funcionamento:
Segunda, Quinta e Sexta
15:00 / 20:00

Sábados e Domingos
11:00 / 18:00

 

 

Áreas Principais

Exposição DISSIMULAZIONI

5 de Agosto de 2018

 

Esta exposição não nos fala da arqueologia culta que já estamos habituados a apreciar por ser um resto silencioso do passado, mas antes da ruína que data de ontem como um tempo nosso. As paredes rasgadas dos prédios, os rebocos fragmentados evocam, aludem, dizem-nos que arqueologia é palavra de hoje, é a arqueologia do quotidiano sobre a qual desatentamente caminhamos e que as belas fotos de Paolo nos devolvem, dando-nos consciência disso.

Franco Guerzoni, 2018

 

Franco Guerzoni e Paolo Barbaro – o primeiro está entre os mais importantes artistas italianos da pesquisa conceptual, o segundo é conservador e historiador de fotografia – conhecem-se desde a segunda metade dos anos 70. 

Em 2012 Paolo Barbaro está em Lisboa, reencontra na cidade em mutação (a gentrificação, as ruínas, as superfícies que contam uma memória urbana) imagens como que vistas pelos olhos dos amigos Ghirri, Guerzoni, Bizzarri. Manda ao artista estas fotografias que parecem quadros dele, coisa que continua a fazer todas as vezes que viaja. Guerzoni e Bizzarri tornam-se afectuosos organizadores ou ensaístas. Desenvolve-se assim uma história de que esta exposição mostra alguns vislumbres provisórios.

 

Alguns de nós conheceram Paolo Barbaro ainda no outro milénio, em 1996, quando a associação Abril em Maio organizou duas exposições bem diferentes de Giuseppe Morandi: «Quem trabalha a terra na Baixa Padana» (na Galeria da Mitra), e «Vigésimo Primeiro Verão» (na ZDB, então para os lados do Cais do Sodré). Foram as duas primeiras exposições de Morandi em Lisboa. Paolo Barbaro já tinha escrito sobre a obra de Morandi, fotógrafo não profissional de origem camponesa. Veio participar em colóquios, em conversas e um texto seu está no catálogo. Chama-se «Histórias de um corpo».

Entre muitas outras coisas, diz: «Assim, uma vez acabada, para Morandi, a legibilidade existencial do campo, restam as pessoas, os seus espaços e as suas representações, finalmente os seus corpos a contar».

Alguns de nós encontraram-no (às vezes tocava guitarra), na festa anual da Lega di Cultura de Piadena, na casa do Micio e no seu pequeno bosque. Trabalhava na Universidade de Parma, precisamente no departamento de fotografia, que veio a instalar-se na Cartuxa de Parma (não é a do Stendhal…, mas fica no meio do campo), que também alguns de nós visitaram, maravilhados pelo trabalho de recolha, arquivo, pensamento que lá se constrói.

O Paolo tem vindo várias vezes a Lisboa, quase sempre com o Morandi e o Micio, a propósito de exposições de fotografia, que agora têm sido na Casa da Achada. A sua vinda em 2012 marcou (quase em silêncio, diga-se – «dissimulações»?) o arranque dum trabalho que foi continuando, sempre com Franco Guerzoni na cabeça, um interlocutor, e a partir de Lisboa.

Num breve encontro com Franco Guerzoni, há uns tempos já, no seu atelier de Modena, falámos desta exposição e foi difícil escolher qual seria a questão central que ela poria: «Trabalho (artístico)» (que seria tema de um ciclo que se fez na Casa da Achada-Centro Mário Dionísio)? «Ruínas»? Nos dois casos: «transformações», «mutações» se se quiser. Que incluem (via Paolo Barbaro) a de Lisboa. Estas duas questões talvez se juntem na exposição. E provavelmente de maneiras inesperadas.

É para nós impossível não referir isto a propósito («isto anda tudo ligado», de facto) – e não agradecer (se é que estas coisas se agradecem): o Paolo e a Claudia Cavatorta (que também faz a sua vida na Cartuxa de Parma), vieram semanas antes do ciclo «Para que serve a memória» para trabalhar, por proposta sua. Catalogaram umas centenas de máquinas fotográficas do Maçariku, fundador da Abril em Maio e da Casa da Achada, desaparecido dois anos antes. Passaram assim essas suas férias.

Foi, da parte deles, um trabalho (especializado) de memória, resultado da preocupação – que também é nossa – com o «para que serve» e com o ligar pontas, pessoas, ideias, objectos e fortalecer as relações que aconteceram e vão acontecendo. Mesmo quando não é tão fácil como pode parecer.

Casa da Achada-Centro Mario Dionisio

Ciclo Outra sociedade – À volta das ideias de Ivan Illich

27 de Junho de 2018

Vai começar em breve um ciclo para pensarmos a sociedade de hoje, partindo das ideias de Ivan Illich. Aqui deixamos o programa de Julho. O ciclo continua até Setembro. Como é uso na casa, todas as sessões são de entrada livre.

ciclo
Outra sociedade – à volta das ideias de Ivan Illich
JUL-AGO-SET 2018
na Casa da Achada

Vivemos, hoje, no quadro de um capitalismo global que alguns qualificam de «enlouquecido». Politicamente marcado pelas orientações ditas neoliberais, os seus modos de produção e de consumo têm vindo a engendrar o agravamento das modalidades de exploração do trabalho, bem como das desigualdades sociais. Para compreender e discutir criticamente a natureza e amplitude da crise civilizacional com que estamos confrontados vamos «revisitar» as ideias de Ivan Illich (1926-2002) e a sua crítica radical das sociedades industriais  da segunda metade do século XX. Partindo das temáticas que ficaram célebres pela desmontagem crítica de Ivan Illich, vamos abordar os temas da saúde, dos transportes, do ensino e das alternativas ao desenvolvimento.
Este ciclo é organizado pela Casa da Achada – Centro Mário Dionísio em colaboração com a APCEP – Associação Portuguesa para a Cultura e Educação Permanente.

EM JULHO:

conversa
A obsessão da saúde perfeita
Limites e efeitos perversos da medicalização das sociedades.
A mercadorização da saúde. Os doentes permanentes.
«Nos países desenvolvidos a obsessão da saúde perfeita transformou-se num factor patogénico predominante. O sistema médico, num mundo impregnado pelo ideal instrumental da ciência, cria constantemente novas necessidades de cuidados. Mas quanto maior é a oferta de saúde, mais as pessoas respondem que têm problemas, necessidades, doenças. Cada um exige que o progresso ponha fim aos sofrimentos do corpo, mantenha durante o maior tempo possível a frescura da juventude e prolongue a vida até ao infinito. Nem velhice, nem dor, nem morte.» Ivan Illich
Abrimos o ciclo «Outra sociedade – À volta das ideias de Ivan Illich» com uma conversa em torno da saúde na sociedade de hoje, partindo desta e de outras provocações de Illich. Uma conversa aberta com a participação de pessoas relacionadas de diversas formas com a questão da saúde.
Sábado, 7 de Julho, às 15h30

apresentação do livro
Para uma história das necessidades, de Ivan Illich
Jorge Leandro Rosa vem apresentar-nos o livro de Ivan Illich «Para uma história das necessidades», reeditado recentemente pela editora Sempre em Pé.
Sexta-feira, 13 de Julho, às 18h30

conversa
A bicicleta – utensílio convivial
«A bicicleta é um invento da mesma geração que criou o veículo a motor, mas as duas invenções são símbolos de avanços feitos em direcções opostas pelo homem moderno. A bicicleta permite a cada um controlar o emprego da sua própria energia; o veículo a motor, inevitavelmente, torna rivais entre si os utentes, por causa da energia, do espaço e do tempo. No Vietname, um exército hiperindustrializado não conseguiu derrotar um povo que se desloca à velocidade da bicicleta. Isto deveria fazer-nos meditar: talvez a segunda forma do emprego da técnica seja superior à primeira.» Ivan Illich
Sábado, 28 de Julho, às 15h30

oficinas
Bicicletas: Artes, arranjos e caminhos
Arranjar a bicicleta, com Jorge Semedo 1 e 8 de Julho
Fazer pequenas biciclARAMEtas, com Rui Marques 15 de Julho
Criar autocolantes com novos sinais de trânsito 22 de Julho
Dicas para dar ao pedal 29 de Julho
Domingos das 15h30 às 17h30

ciclo de cinema ao ar livre
Modos de habitar
Enquadrado no ciclo «Outra sociedade – à volta das ideias de Ivan Illich», que revisita as ideias de Ivan Illich (1926-2002) e a sua crítica radical das sociedades industriais da segunda metade do século XX, a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio propõe para este Verão um ciclo de cinema ao ar livre sobre MODOS DE HABITAR.
Projectados entre dois prédios que em breve deixarão de ter vizinhos para dar lugar a mais alojamento local, os filmes escolhidos (ficções e documentários) são uma pequena amostra de diferentes modos de habitar. Da burguesia e da classe operária, dos bairros do centro e da periferia, das crianças e dos velhos, de ontem e de hoje. E, quem sabe, de amanhã.
Habitamos a cidade, habitamos o campo, mas também habitamos as ruas, os espaços devolutos, as casas e os cemitérios. E o que fazemos com esses espaços? E com o tempo que neles passamos?
O apartamento de Billy Wilder 2 de Julho
Nova Iorque fora de horas
de Martin Scorcese 9 de Julho
Quando o rio se enfurece
de Elia Kazan 16 de Julho
A caixa
de Manoel de Oliveira 23 de Julho
Arena
de João Salaviza 30 de Julho
Segundas-feiras, às 21h30

O ciclo continua em Agosto e Setembro.

Zé d’Almeida ou Zé Dalmeida

29 de Maio de 2018

Não mais oficinas de barro ou de cartoons, de papagaios que voam, de amigos em cada esquina, imaginadas e feitas por ele, aqui na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, sempre com vontade de ir para a rua e encontrar outras gentes. Mesmo quando já estava doente. Mas gostava e insistia, sempre que lhe era possível.

Sem falar na colaboração na Leitura Furiosa, onde as ilustrações que fez foram várias vezes em barro. Por isso, em 2013, foi ele que, precisamente em barro, imaginou, a pedido, aquilo a que se chamou o «logotipo» dessa invenção internacional e que durou uns anos.

Com a sua morte, pelo menos para alguns, o deserto aumenta de dimensões. Sobretudo para quem o conheceu e às suas invenções gráficas na Gazeta da Semana, dirigida por João Martins Pereira, e no fabrico do boletim do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, na segunda metade dos anos 70 – coisa esquecida, como outras.

Para ele e para nós, o humor era um trunfo. Sempre pouco preocupados com aquilo que se tem chamado o «politicamente correcto». É que quer ele quer nós queríamos mesmo que o mundo mudasse.

O Zé d’Almeida ofereceu tempo, trabalho, ideias e obras suas à Casa da Achada-Centro Mário Dionísio, porque achava que era normal que ela pudesse existir e sobreviver.

Só podemos dizer agora: obrigado (de verdade) e até sempre, é claro.

E agradecer que tenha sido escolhida esta Casa para umas tristes horas de velório, das 16h às 22h de 30 de Maio de 2018.

ANTÓNIO LOJA NEVES

29 de Maio de 2018

O António Loja Neves foi-se, quando julgávamos que, afinal, ele seria eterno. Enganámo-nos.

Pelo menos para alguns (que ainda existem), não para todos (e, se calhar, ainda bem), é o trágico alargar de uma espécie de deserto que se tem vindo a instalar, de várias maneiras.

António Loja Neves existiu. Existe. Queremos que seja para todo o sempre.

Fez escolhas, aprendeu muitas coisas, e gostava mesmo de passar aos outros o que aprendia e o que ia fazendo a partir do que aprendia e vivia (não se aprende sem viver), pensando nas coisas contraditórias que aprendia, e querendo fazer outras depois.

Colaborou, na medida do possível, em actividades da Casa da Achada. Apresentando filmes, mas não só. Até vimos aqui um filme seu, ainda não terminado, chamado «Silêncio», sobre a Guerra Civil de Espanha por cá.

É impossível esquecer a intervenção que fez aqui, em 2012, numa maratona de intervenções, a que chamámos «Máscaras, prisões, liberdades e cifrões» e que terminou assim:

«Bom, António – estou a dizer para mim próprio –, vieste de Setúbal a correr, em excesso de velocidade, para vir cá só dizer isto e para te ires embora a correr a seguir, perigosamente em excesso de velocidade? (estava a trabalhar em Setúbal e interrompi…). Não, eu não vim cá só para falar, vim cá porque achei que era importante estar convosco, discutir convosco, participar deste núcleo decidido, para que novas ideias se desenvolvam e possamos, ancorados neste espaço nuclear, dar a volta nestas questões todas, tão extremas para as nossas vidas e, sobretudo, para a vida dos que nos sucederão no nosso país – a que desejam retirar a bússola, roubar o norte. É importante que a gente comece a driblar os acontecimentos que os missionários insistem serem fatais, como dos dogmas, e redefinirmos que o norte é “ali”, que o nosso norte é o que indicia novas ideias, uma renovada e fraterna sociedade. E a cultura – afinal foi sempre do que falámos… de cultura! – é ferramenta essencial para tal projecto. Até eles sabem disso, por isso a agridem e a sufocam actualmente. Porque um povo culto não se deixa ludibriar!»

A grande ligação com ele veio, para alguns de nós, pelo entusiasmo que teve na fundação da Abril em Maio, em 1994. Só não foi fundador «oficial» porque os múltiplos afazeres não o deixaram chegar a tempo ao notário…

Temos uma tristeza muito grande com esta morte. É o desaparecimento de alguém que percebia o que nos move, sempre disponível para o que temos querido fazer. Nós e ele.

É um lugar-comum dizer, mas aqui e agora é muito mais do que isso: Até sempre, camarada!

 

André Spencer e F. Pedro Oliveira para Casa da Achada - Centro Mário Dionísio | 2009-2017