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O Coro da Achada na festa da Lega di Cultura di Piadena

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«Para que serve o canto popular?
A che cosa serve il canto popolare?

– Não sei.
– Não sabes?
– Não.
– Mas há-de server para alguma coisa, não?
– Queres dizer… a função que tem…
– Sim, há-de ter uma função, ou várias.
– Foi usado por compositores de músicas “clássicas”, por exemplo, a partir de recolhas… século XIX e XX… e ainda hoje
– Não, não é isso.
– Então o que é?
– Isso é indirectamente. Eu quero saber para que serve hoje, directamente.
– Canto?
– Canta.
– Popular?
– Isso eu sei o que é – é do povo.
– Então canto popular é o canto que o povo canta.
– Mas o povo canta tanta coisa diferente…
– Eu acho que não anda a cantar muito. O que queres dizer com isso?
– O povo canta música pop da moda. O povo assobia enquanto trabalha. O povo entoa cânticos de futebol, e de outras religiões… O povo canta nas festas por cima da aparelhagem…
– Eu quando penso em canto popular, penso em canto colectivo, principalmente. Mas o canto popular também pode server para controlar, disciplinar. Olha o canto da Mocidade Portuguesa…
– Pois, tivemos em Portugal 48 anos de fascismo.
– Havia o folklore do regime – “contrafacção folclórica”, como lhe chamava o Fernando Lopes Graça.
– E o que não é contrafacção?
– É folklore autêntico.
– Mas isso é assim fácil de distinguir?
– Hmmm… pois… na altura era, não sei, talvez… Havia a ideia de restituir ao povo (doutra maneira, é claro) aquilo que lhe tinha sido roubado.
– Há-de haver critérios, alguma maneira de separar o trigo do joio.
– Mas não é só uma questão de qualidade… de distinção.
– Pois, eu percebo.
– Por que é que te calaste?
– Estava a pensar melhor…
– Em quê?
– Estava a pensar nos conceitos de «povo» e «popular». Na verdade podem ser de tal modo amplos que não servem para nada. O de «povo» não tem mesmo salvação…
– Não tem salvação?!
– Mas o de «popular», se entendermos por isso (com todas as dificuldades que estes conceitos adjectivos também possam encerrar) o que tem raízes genuinas na história social regional ou nacional, o que encerra uma tradição experimentada e que teve sentido, função social e política, o que se conexiona com uma autoria colectiva (mesmo que inicialmente de um só criador) do povo «trabalhador» (acho que este adjectivo ainda faz sentido apesar de haver não-povo que trabalha, sem dúvida, creio que será o caso do Ricardo Espírito Santo, um banqueiro português), talvez possa ser usado. Quando se canta «popular» neste sentido age-se contra o gosto e as expectativas da maioria do «povo», que tem preferência pela coisa «popular» que vem de cima, da cultura dominante. Isso é outro canto, aí é que entram os que enchem o Pavilhão Atlântico.
– Canto popular junta gente de outra maneira.
– Isso também junta uma viagem de metro.
– Canto popular implica emissão vocal…
– Isso também um grande falatório…
– Oh, pá! É canto colectivo, participativo!
– E não devia ser libertador, cantar?
– Não sei. Acho que sim. Não é só para consumir, é para produzir!
– Se calhar não é cantado por especialistas…
– Sim, e passa oralmente…
– E em mp3… hahaha!
– Hahaha!
– Bom, então e o canto popular não serve para lutar?
– Lutar como?
– Lutar – cantar em manifestações, greves, contra a injustice (entoa el pueblo unido jamás sera vencido)
– Já serviu mais.
– Tens a certeza?
– Em Itália parece que sim.
– Mas eu não estou a falar só de Itália!
– Então mas isto não é uma pergunta italiana?
– É, mas toda a gente canta no mundo todo – há canto popular no mundo inteiro.
– “Nostra patria e il mondo intero…”
– Bem, queres converser ou só pores-te a gozar?
– Mas tu também estavas a cantar!… Vá está bem. Conversa lá então.
– Eu acho que o canto popular não são as modas e a música pop. Não é uma coisa toda produzida, arranjadinha. É produção voluntária, necessária, autónoma. Acho que tem um lado emancipador quando é dissonante.
– Dissonante?
– Rugosa, não limada, espontânea, crua, dura, não apoiada em almofadas, No disco das «Seeger Sessions» do Bruce Springsteen, em que canta canções do Pete Seeger, ele diz que estas canções que vão cantar vêm de muito longe, de cantos rudes de homens e mulheres rudes: «initially these were raw and wild songs sung by raw and wild people». Creio que o respeito por esta estética não-redondinha também faz parte do conceito positivo de «popular». Depois, claro, vem o de que lado estás e o cantar com. Tudo isto e mais uma pitada de sal dá provavelmente sentido ao canto «popular» hoje.
– Mas isto é uma grande caldeirada!
– Pois é, mas a caldeirada é um prato muito saudável, cheio de ómega 3!
– Eu acho é que tem de ser sentida, tem de ser sentida para ter sentido…
– És uma romântica!
– Sou?
– És.
– Porque dizes isso?
– Achas que o canto popular é puro e selvage, lalalalala…
– Não foi isso que eu disse. Eu disse dissonante.
– Hmmm, está bem. O melhor é ficarmos por aqui.
– Ficar por aqui?! Logo agora que isto estava a aquecer?!!»

Diálogo que resultou das discussões do coro em três sessões públicas na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio sobre o tema da festa da Lega di Cultura di Piadena. Nestas ligações podem ver vídeos e imagens (em actualização).

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