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A Festa da Lega di Cultura di Piadena – 23, 24 e 25 de Março de 2018

Fomos à Festa de 2018. Éramos sete vindos de Lisboa, mais uma amiga que já lá estava. Sete mais um, dá oito. Mas encontrámos muita gente, amigos velhos, recentes e por fazer. Gente que deseja a transformação do mundo e é capaz de imaginar uma sociedade sem desigualdade de condição, sem classes, sem opressões, sem fronteiras.

Utópicos e práticos, revoltados e apaixonados, gente que luta e não quer esquecer os combates de ontem e as canções que acompanharam essas batalhas. Gente que quer mudar a vida presente e o mundo correspondente. Gente que ali se junta, na casa de Gianfranco Azzali, o “Micio” – ele abre as suas portas a amigos de toda a Itália e de todas as nacionalidades. Junta-se a conviver, a falar e a comer, a beber e a cantar, a debater e a partilhar ideias, objectos, gestos, ferramentas para as lutas que virão. A gente ajuda a fazer a festa e a comida, à mesa ou no belo pequeno bosque da casa do Micio.

No sábado de manhã viram-se dois filmes, um sobre o Peto, pedreiro e construtor, para além de cantor popular, um filme simples, rude e belo, com um ponto de vista. Depois o documentário de Peter Kammerer realizado em 1977 para a televisão alemã, “Kennst du das Land?”, que nós traduzimos, editámos e levámos em DVD, com legendas em francês, português e italiano traduzidas aqui em Lisboa.

No sábado à tarde, abriu-se um debate. Debateu-se este ano “…a menos que o poder mude a sua natureza…”, um tema difícil sobre as dominações de hoje e as formas de acabar com elas, propondo e praticando outras formas de lutar e viver. O que é o poder, o que são os poderes? Quem o possui? Quem o usa? Como o usa? Quem manda? E porquê? Porque destrói o capitalismo a terra e degrada as relações humanas? Como limitar o poder dos capitais, dos estados, dos impérios? E o do patriarcado? Mas são só esses, os poderes? Como acabar com eles? Como mudar a sua natureza? Queremos nós “o poder”? Tantos relatos, tantas perguntas.

Ao fim da tarde, uma visita desagradável de uma inspecção estatal, que diz que não se pode comer, beber e fazer festa em liberdade no espaço privado que pertence a Gianfranco Azzali. Uma festa com décadas, entre mil amigos, não comercial. Indignação de muitos, que foram cantando para espantar os senhores inspectores. A gente discute: “Se houver alguma multa, haverá solidariedade”. A festa continua. E continuou.

No domingo, depois de uma emotiva homenagem à Ughetta, grande amiga da Lega di Cultura que morreu este ano, veio a festa com comida, bebida, grupos musicais e coros lançando canções socialistas, comunistas, anarquistas, populares e eruditas, de ontem e de hoje, palavras, trocas de ideias e de abraços. Com umas 1500 pessoas a passar por ali. É impossível contar, porque as amizades se cruzam, os cantos se espalham e misturam, e há emoções fortes que não se conseguem traduzir. E porque a Lega di Cultura de Piadena, fundada em 1967, é uma associação de acção cultural e política, com seres humanos que querem poder humanos ser.

Trazemos para Lisboa mais oxigénio, horizontes mais largos, ideias para pôr em acção, práticas para pensar a acção cultural, um desafio para escutar os outros, ter esperanças e desesperanças, resistir e não desistir da procura incessante de outras formas de viver. E trouxémos também um bocadinho de queijo.

No dia seguinte, saímos do trabalho para almoçar com a urgência de nos sentarmos num banco da avenida, ao sol, para repensar na festa e no que acontece quando a festa acaba. O que é que se propaga pelos outros 362 dias do ano?

A festa é o encontro entre muita gente com mais ou menos as mesmas preocupações. É a resistência ao estado das coisas através  do canto (é potente quando quinhentas pessoas cantam juntas canções de luta!), dos debates, dos filmes, dos espectáculos. É a generosidade, a entreajuda entre dezenas de pessoas para fazer a festa (esta, outra forma de resistência). É o comer, o beber, o cantar. Cantar muito. O estar. É uma multidão na tenda, no bosque, batuques, bandas, galos e galinhas, miúdos a jogar à bola, magotes de gente a cantar, outra e outra vez. No fim, é a conversa que se prolonga, um copo de «bianchino», um cigarrinho sem horas marcadas.

E depois?
Depois, é esta urgência de nos sentarmos a pensar ao sol, de nó na garganta, sobre como esta festa é importante. De perceber que entre a festa da Lega di Cultura di Piadena e a Casa da Achada há uma ligação apertada. Que aqui também há encontro, generosidade, entreajuda, canto, conversa e discussão e muita amizade.  E que a festa, afinal, continua aqui, ou, pelo  contrário, que a festa é aqui e que continua lá com mais gente.

Pensar em conjunto, viver, conviver, mas também fazer, fazer mais por mundo mais justo e por uma vida mais plena para todos. Será este um dos sonhos desta festa? E cantar.

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