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Memórias de «Para que serve a memória»

23 de Setembro de 2016
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Entre 25 e 29 de Agosto, a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio realizou uma iniciativa intitulada «Para que serve a memória», com a presença de amigos da Lega di Cultura di Piadena, uma associação cultural à beira dos 50 anos de existência. Foram dias intensos na Casa da Achada de exposições, debates, filmes e cantos, com muitos amigos presentes, daqueles que não se vêem todos os dias. Oportunidade rara para discutir «memória» e como ela se torna activa quando queremos transformar o mundo, para discutir o problema das «fronteiras» num clima de solidariedade internacional, para pensar o «trabalho» e as formas de combater e dar a volta à exploração.
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No primeiro dia foi inaugurada a tripla exposição de fotografias de Giuseppe Morandi (montada com ajuda do Peto e do Leo, dois amigos da Lega di Cultura que também vieram), fotomontagens de Nancy Goldring e de câmaras fotográficas do espólio de Vítor Ribeiro, o Maçariku, fundador da Casa da Achada que queríamos mais uma vez lembrar e homenagear, dois anos depois da sua morte. A partir da sua vida surgiram naturalmente os assuntos que queríamos levantar, temas fortes da sua acção e do seu pensamento: «memória», «fronteiras», «trabalho». Apareceu muita gente logo no primeiro dia, 25 de Agosto, para inaugurar estas exposições e ouvir Eduarda Dionísio, Paolo Barbaro e Nancy Goldring, que explicaram as ideias centrais destas exposições.
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A relação com a Lega di Cultura di Piadena esteve no centro – e a memória serviu, entre outras coisas, para lembrar com entusiasmo e emoção uma cumplicidade e uma amizade de 20 anos. Eduarda Dionísio elaborou uma cronologia bem detalhada desta amizade internacionalista com a Lega di Cultura di Piadena. Esta associação é sediada em casa de Gianfranco Azzali (o Micio, que também esteve presente, é claro!). Numa das paredes dessa casa está uma frase de Gianni Bosio: «Todos os homens devem tornar-se homens de cultura sem perder a sua qualidade de homens».
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Na sexta-feira, dia 26, projectou-se um filme recente de Giuseppe Morandi (os seus belos filmes antigos estiveram a ser transmitidos numa pequena televisão durante a exposição) que deu o mote para o primeiro dos debates, aberto por Pedro Prista, e que deu origem a uma animada discussão sobre a memória e os seus usos, os seus processos, as suas contradições. Muito participada, mas ficou a sensação de que se tinha de ir mais longe ainda, de que não havia tempo para um debate tão vasto. Nessa noite, depois de boas comidas acompanhadas pelo inevitável Grana Padana, o queijo italiano da região de onde vêm, houve cantoria: Bruno Fontanella cantou, acompanhado por Maurizio, Peto e Leo, canções populares e hinos da unidade de Itália do século XIX. Um concerto que foi gravado por Joaquim Pinto e alguns seus colaboradores, a pensar numa edição futura… Depois de Bruno Fontanella e do canto de outro amigo vindo de Piadena, o imigrante indiano Jagjit que também faz parte da Lega di Cultura, pudemos ouvir ainda Adufe e Alguidar, um grupo de jovens mulheres que cantam e tocam percussões várias (com o Adufe em destaque), reinventando a memória e criando coisas novas a partir de cantos de raiz tradicional. Uma bela noite que deu ainda para um animado convívio com partilhas de canções até às tantas, no jardim interior da Casa da Achada.
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No Sábado as hostilidades começaram com o debate sobre o trabalho, aberto por um grupo da Casa da Achada num diálogo sobre o trabalho construído a partir de um debate aqui realizado no início do ano sobre «Outro trabalho, outra vida». As provocações quase «teatrais» deram origem a um debate animado (mais uma vez muito vasto, e muita gente quis tomar a palavra). Conclusões? Às vezes no levantar de questões e nas escolhas dos problemas já se diz muito… Diminuir o horário de trabalho? Sim, mas não chega. Transformar o trabalho, superar as contradições insolúveis do capitalismo? Sim, mas é preciso também pensar e praticar outras formas de trabalho e vida em comum. E por aí fora, com divergências e convergências que levamos, mais ricos (mesmo se de bolsos vazios), para as lutas quotidianas que se seguem… Como diz a canção que se ouviu à noite: «…Scarpe rotte, Eppur bisogna andar…» («…sapatos rotos, e contudo é preciso caminhar»).
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Na noite de Sábado, mais um concerto, com canções populares italianas pelos mesmos Bruno, Peto, Leo e Maurizio. E depois o Coro da Achada, com a energia renovada, inspirados pelos fortes cantos (e que forma de cantar!) dos nossos amigos italianos.
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No Domingo, o último dos debates, «Abolir fronteiras, separar as águas», tentando levantar o problema que parece urgente de uma Europa fechada a cadeado e a arame farpado, com milhares de pessoas a fugirem de guerras e a depararem-se com fronteiras bem vigiadas, arriscando a vida pela paz, pelo pão. Peter Kammerer levantou problemas de fundo para pensarmos se podemos de facto «abolir fronteiras», ou se é apenas uma utopia… Bruno Fontanella supreendeu fazendo a sua intervenção cantada. Uma canção pode dizer muito, até num debate. E faz-nos pensar que a terra (e o mundo) podia mesmo ser de todos os que a trabalham
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Debate complexo e longo, onde se falou de outras fronteiras (na língua, na linguagem, nas ideias) que nos separam também. Mas foi a comer o queijo que nos esquecemos das diferenças. E a beber o vinho que cantámos a igualdade, a fraternidade e o grito revolucionário «A nossa pátria é o mundo inteiro» que nos faz ver mais longe, muito para lá das barreiras. À noite, o último concerto.
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Canções de resistência e de luta do século XX italiano. Mas também canções populares do Bruno, do pai do Peto e da mãe do Micio. Canções que resistem e que nos vêm à memória. Para mudar as coisas já. Depois, o grupo Frente Popular, que animou as hostes (e até nos pusemos a dançar) com novas versões de canções revolucionárias portuguesas e canções anti-colonialistas africanas.
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No dia seguinte, segunda-feira, houve ainda um extraordinário passeio no Tejo com alguns dos amigos da Lega di Cultura. Fomos até ao lado de lá, visitar amigos «de cá», de Alhos Vedros – a associação CACAV, onde se voltou a cantar e a comer com alegria. porque outros já tinham partido, deixando ideias e abraços e tanta força, mas também saudades. Ainda sobra daquele grande queijo de Itália, e já estamos em Setembro.
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Para que serve a memória? Anotar num caderninho, para não esquecer: «A nossa pátria é o mundo inteiro» e «Não se pode ser feliz sozinho». Promessa: nos 50 anos da Lega di Cultura di Piadena vamos lá nós. A amizade é como a liberdade: se não se praticar, esquece. E às vezes é mesmo preciso aquele abraço.

Para que serve a memória

4 de Agosto de 2016

para que serve a memória - pequeno

É o tema que nos vai ocupar na última semana de Agosto. Lembrando MK (Maçariku , Vitor Ribeiro – ver mais aqui)  que está ao centro da grande relação com a Lega di Cultura di Piadena, nascida há quase 50 anos, que alguns de nós conhecem quase há 20, que vai estar connosco uma vez mais na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, um grupo para quem a memória foi sempre, de uma forma ou de outra, um tema.

É um tema que nos preocupa também. Uns dirão «não serve para nada», outros «para tudo». Mas o que nos parece importante tratar é: que e quem lembrar? que e quem é esquecido? Como fazer das nossas cabeças «arquivos» sem cotas mas vivos? E para fazer o quê com eles? Por exemplo, será possível pegar em dramáticos e controversos problemas como o trabalho ou as fronteiras, como se fosse pela primeira vez?

A fotografia é entre muitas outras coisas mais, um trabalho de memória – durante ou depois.

GIUSEPPE MORANDI fotografa há 60 anos talvez. Começou pelos camponeses da sua terra, na planície do Pó, Itália, que já não há. Foi parar nos últimos tempos aos imigrantes de vários continentes que agora lá vivem e cumprem no mesmo lugar os poucos trabalhos que ainda restam. Irrita-se porque hoje as pessoas dizem gostar mais das suas fotografias do passado do que das do presente…

No dia 25 de Agosto, às 18h, inaugura, com visita guiada, uma exposição antológica deste fotógrafo, autodidacta, que expõe em Portugal desde 1996. É a sua segunda exposição na Casa da Achada. Título da primeira: «Deus no telhado e os novos anjos», com que festejámos o 25 de Abril de 2012.

Às dezenas de fotografias a preto e branco por ele escolhidas e por Paolo Barbaro (professor de História da Fotografia na Universidade de Parma e que tem acompanhado o trabalho de Giuseppe Morandi sobre o qual muito escreveu), acrescentam-se, por proposta deste (para ver claro, para pensar), 6 fotos a cores de Nancy Goldring (Urban Amnesia), conhecida fotógrafa americana, desconhecida em Portugal.

E vamos projectar os dois últimos documentários de Giuseppe: uma encomenda (o que é raro na sua obra), Il faló di Pescarolo, sobre o Carnaval que ainda se faz em Pescarolo (26 de Agosto, às 17h); um documentário sobre Peto (que estará connosco) – e o seu trabalho, o seu lazer, o canto (27 de Agosto, às 17h).

Com Giuseppe Morandi, e do seu inseparável cúmplice, Gianfranco Azzali (Micio), ambos fundadores da Lega di Cultura di Piadena, estarão cá outros fundadores da Lega (Peto, Bianca), colaboradores permanentes e amigos (Bruno Fontanella, Leo, Jagjit, Mario Agostinelli, Peter Kammerer, Graziella Galvani, e outros).

BRUNO FONTANELLA, pedreiro reformado, vive em Piadena, só fala dialecto e canta desde que nasceu: canções de trabalho e de festa, canções populares de luta (anarquistas, socialistas, comunistas). Muitas delas desaparecerão com ele. Por proposta de Peto, registaremos (em boa qualidade) o seu «cancioneiro» que não é igual a todos os outros. Serão 3 concertos, todos diferentes (26 de Agosto, às 22h, 27 e 28 de Agosto, às 18h30) em que Peto e Leo o acompanharão e também ouviremos outras vozes: de Jagjit (indiano, mungidor de vacas em Piadena, como foi Micio noutros tempos, muito fotografado por Morandi), do Coro da Achada, das Adufe & Alguidar e dos Frente Popular, cada um à sua maneira, na memória e na intervenção.

Mas, se calhar, só a falar é que a gente se entende. O que não é difícil com estes «parceiros».

Estão agendadas três conversas, com gente da Lega di Cultuta di Piadena ou trazida por ela, e gente de cá para quem a memória (mas que memória?) conta e se preocupa com o presente:

Para que serve a memória? Com respostas de quem a «arquiva» ou de quem vive dela ou com ela (26 de Agosto, às 18h): participam Claudia CavatortaNancy Goldring, Paolo Barbaro, Pedro Prista Monteiro e outros.

Outro trabalho, trabalho outra vida, continuação de um debate iniciado este ano em Piadena, partindo nós aqui de um texto fabricado na Casa da Achada e das ideias de Mario Agostinelli, ex-secretário geral da CGIL-Lombardia que abandonou, fundador do movimento Unaltralombardia, etc. Como é que a memória pode ou não pode entrar aqui? (27 de Agosto, às 15h): participam Mario Agostinelli, Micio, Peto e outros.

Abolir fronteiras, separar as águas, peça importante do actual ciclo de 3 meses da Casa da Achada, Fronteiras fora e dentro, a que Peter Kammerer, alemão que escolheu viver em Itália, depois de 1968, professor aposentado de sociologia da Universidade de Urbino, que muitas vezes esteve connosco, dará o pontapé de saída. Como é que a memória pode ou não pode entrar aqui? (28 de Agostom às 15h): participam Mario Agostinelli, Peter Kammerer e outros.

E, no dia 29, às 21h30, segunda-feira, será Peter Kammerer a apresentar o filme Una vita violenta (1962, 106′), de Paolo Heucsh e Brunello Rondi, com argumento de Pasolini, incluído no nosso ciclo de cinema ao ar livre sobre Fronteiras. Pasolini, muito lido, visto e estudado por ele e grande referência para a Lega di Cultura di Piadena

Serão distribuídos textos e folhas de sala e uma cronologia das relações com a Lega e estas pessoas que nasceram antes de a Casa da Achada existir (disponível aqui).

Estarão em exposição algumas máquinas fotográficas de colecção de Vítor Ribeiro (Maçariku), um espólio que a Claudia Cavaroria e o Paolo Barbaro se dispuseram a catalogar.

PARA QUE SERVE A MEMÓRIA é para nós uma oportunidade única: ver, ouvir, falar, debater com pessoas com experiências completamente diferentes das nossas e com quem durante 20 anos, nalguns casos, temos feito trocas raras. Terá sido uma forma simples de abolir fronteiras. O que foi muito alimentado e facilitado por MK que agora já não poderá participar. Esta será também uma maneira de manter viva a sua memória.

Mário Dionísio: os primeiros 100 anos

29 de Julho de 2016

Decorreu no passado sábado, dia 16 de Julho, uma série de actividades a que a Casa da Achada- Centro Mário Dionísio intitulou Os primeiros 100 anos, comemorando o centenário de Mário Dionísio no dia em que ele faria precisamente 100 anos. As actividades começaram cedo, a meio da manhã, com um “quebrajum” para não começarmos de estômago vazio. Seguiram-se as primeiras oficinas de t-shirts, jogos (“Gafanhoto Caracol”, um jogo de tabuleiro criado pela Casa e que também esteve à venda, mas também xadrez) e leituras. Leram-se poemas, excertos de entrevistas a Mário Dionísio, partes da sua Autobiografia e d’ A Paleta e o Mundo. Gente foi chegando ao longo do dia, ocupando as ruas da Casa da Achada e as sombras no jardim onde ficou situado o bar que não parou até ao fim da festa.

Às 16h o coro da Achada fez um espectáculo a que chamou Não se pode viver sem utopia, uma apresentação que cruzou canções com textos de Mário Dionísio e de outros, marcando o centenário do seu nascimento e convocando as nossas inquietações actuais (a guerra, os refugiados, o trabalho, a perda de direitos sociais, o controlo dos media, a glorificação do dinheiro), pensando sempre em formas possíveis de transformar a realidade e relançando uma ideia de Mário Dionísio, a de que não podemos viver sem utopias e é necessário imaginar outras formas de viver em comum.

Depois do espectáculo do coro, continuaram as oficinas de fazer pins e t-shirts, e constantes leituras feitas por muita gente – umas preparadas, outras de improviso, animando a rua com palavras e dizeres. Palavras escritas também em cartazes, sugeridos por poemas ou ideias de Mário Dionísio.

Às 18h houve o lançamento da nova edição da Poesia Completa de Mário Dionísio, um título que se justifica por incluir toda a poesia editada do autor, mas também por fazer referência à sua Poesia Incompleta, uma edição entretanto esgotada. Com a particularidade de incluir uma tradução de Le feu qui dort (escrito por Mário Dionísio em francês) para português por Regina Guimarães. João Rodrigues apresentou a edição e explicou como foi feita. Um representante da Imprensa Nacional -Casa da Moeda, Rui Carp, responsável pela edição, explicou a sua integração na lógica da instituição e o director da colecção de poesia, Jorge Reis-Sá, explicou a importância de disponibilizar obras tão importantes como a de Mário Dionísio. Jorge Silva Melo, autor do prefácio da edição, fez uma profunda intervenção sobre o sentido da poesia de Mário Dionísio (poesia escondida, poesia exilada, poesia do quotidiano, reflexão sobre o tempo e a sua passagem) e a sua relevância na literatura do século XX. Poesia Completa vendeu-se ao longo da tarde, a preço especial de lançamento. E muita gente comprou e levou para casa.

Mais tarde, pelas 19h, começou uma série de intervenções Mário Dionísio – por onde é que eu lhe pego, intervenções livres ao microfone, na rua da Achada, de muita gente dizendo como conheceu Mário Dionísio (o homem) ou a sua obra, e porque lhe importa ela, que ideias descobriu. A variedade de intervenções permitiu compreender a diversidade e a riqueza do pensamento, da vida e da obra de Mário Dionísio, capaz de tocar tanta gente e de formas tão diferentes. E até houve gravações enviadas por gente que não podia estar presente, mas queria deixar a sua mensagem à Casa da Achada.

Em transmissão (quase) contínua, esteve um programa da Rádio Paralelo que dedicou o dia inteiro a Mário Dionísio, marcando a ocasião, com entrevistas, poemas, canções. O programa passou também ao mesmo tempo na Rádio Manobras.

Para além das edições da Casa, muitos outros objectos estiveram à venda numa pequena feira, entre livros, roupas, pinturas e outros objectos raros.

Também se aproveitou para pedir apoios financeiros – afinal também é preciso dinheiro para continuar a actividade da Casa da Achada – para a reedição d’A Paleta e o Mundo, que é uma das prioridades actuais da associação.

Em exposição esteve um quadro restaurado recentemente com contribuições de amigos. A mostrar que vale a pena o trabalho (colectivo) de preservação da memória – neste caso da pintura de Mário Dionísio.

E as leituras de poesia não pararam – foi bonito ouvir tantas vozes diferentes a dar novos sentidos àquelas palavras.

No fim do dia, entre risos e aplausos, sorteou-se o tapete de trapilho (à tarde estiveram miúdos e graúdos a vender rifas para isto), uma bela obra feita a partir de um quadro de Mário Dionísio, cuja pintura continua a inspirar muitos fazeres diferentes ali na Casa da Achada.

Tudo isto com tempo para uma conversa, um jogo, uma cerveja, uma sangria, uma tarte ou uma bifana. Um dia pleno de sol, mas também de poesia, arte, palavra, pintura e gente amiga da Casa da Achada (ou que a conheceu pela primeira vez e ali se “amigou”).

Apetece pensar que Mário Dionísio teria gostado, aos cem, de ver esta gente junta, a conviver e empenhada em transformar a realidade, com ele.

O Centenário de Mário Dionísio em Lisboa, em Vila Franca de Xira e na Guarda

7 de Julho de 2016

16 de Julho - pequeno

Mário Dionísio nasceu a 16 de Julho 1916, há 100 anos. A Casa da Achada – Centro Mário Dionísio quer lembrá-lo todos os dias, não apenas nesse dia. Mas hoje também.

No sábado, 16 de Julho, durante todo o dia, entre as 10h e as 22h, haverá actividades para todos na Casa e no Largo da Achada: oficinas, jogos, leitura de poemas, canções, comes e bebes. Estão todos convidados a vir passar este dia connosco; a levarem para casa um exemplar da Poesia Completa de Mário Dionísio, acabadinha de editar pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda; a verem o espectáculo «Não se pode viver sem utopia», apresentado pelo Coro da Achada; a pegarem no megafone e contarem por onde é que pegam em Mário Dionísio, o que vos interessa nele, porque é que precisamos dele hoje, passados 100 anos.

Neste dia, fazemos saltar para a rua as nossas edições e mais uns tantos livros e objectos raros, sorteamos um tapete feito a partir de um quadro de Mário Dionísio e continuamos a campanha para a reedição d’A paleta e o mundo, actualmente esgotada. Não faltarão formas de ajudar a Casa da Achada a continuar o seu trabalho de tratamento e divulgação do espólio literário, artístico e pessoal de Mário Dionísio. Em exposição estará o quadro para cujo restauro pedimos apoio em Dezembro do ano passado, no fim-de-semana «Já não há papel», que já está restaurado!

Venham passar este dia connosco, ler um poema, cantar uma canção, estampar uma t-shirt, fazer um pin, jogar Gafanhoto caracol, ouvir uma entrevista, comprar uma serigrafia, comer, beber, conversar. Porque 100 anos é pouco tempo.

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No Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, pode ser visitada a exposição «Passageiro clandestino – Mário Dionísio 100 anos». Com a curadoria de António Pedro Pita, a exposição pretende homenagear o poeta, artista e pensador, focando-se, sobretudo, na documentação e interpretação da intervenção de Mário Dionísio enquanto  teórico do neo-realismo, o mais relevante desta corrente e um dos mais importantes teóricos da arte do século XX.

A exposição pode ser visitada de terça a sexta-feira das 10h às 18h, sábado e domingo das 10h às 19h, até ao 26 de Fevereiro de 2017.

No sábado, dia 9 de Julho, às 16h, no Auditório do Museu do Neo-Realismo, acontece o colóquio «Mário Dionísio Intelectual» com João Madeira, David Santos e Luís Augusto Costa Dias. Também é apresentado o catalogo da exposição.

Na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda, serão inauguradas duas exposições: «Mário Dionísio – Vida e obra» – composta por 13 painéis biográficos que dão conta da vida de Mário Dionísio através de documentos, textos, fotografias e outras imagens – e «Mário Dionísio – Pintura», onde se podem ver algumas das suas obras pictóricas. A inauguração está marcada para a terça-feira, 12 de Julho, às 18h, e será acompanhada pelo colóquio «Idade terceira» de Regina Guimarães.

A acompanhar estas exposições, estão marcadas ainda duas sessões: a conferência «A invenção do concreto – Mário Dionísio e o realismo como problema» com António Pedro Pita na quinta-feira, 14 de Julho, às 18h e a projecção de 2 horas na vida de uma mulher de Agnès Varda no sábado, 23 de Julho, às 21h15.

Leitura Furiosa 2016

20 de Junho de 2016

A Leitura Furiosa destina-se aos que, sabendo ler, estão zangados com a leitura – crianças e adultos, homens e mulheres, empregados e desempregados, portugueses e estrangeiros.

Podem ler os textos feitos em Lisboa:

E uma excepção, fora de Lisboa, por motivo de férias da escritora:

  • «A Bica do Povo» de Filomena Marona Beja com um grupo da Bica do Povo, em Caldas de Arêgos, ilustrado por Pierre Pratt.

A sessão pública, no dia 12 de Junho, contou a leitura de textos de Lisboa, Caldas de Arêgos, Porto e Amiens pelos actores Andresa Soares, Bruno Humberto, F Pedro Oliveira, Inês Nogueira, João Cabral e Sofia Ortolá. Fotografias da sessão por David Lopes.

 

Leitura Furiosa duma cidade

8 de Junho de 2016

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A Leitura Furiosa destina-se aos que, sabendo ler, estão zangados com a leitura – crianças e adultos, homens e mulheres, empregados e desempregados, portugueses e estrangeiros.

A Leitura Furiosa é um acontecimento especial que acontece anualmente há vários anos em Lisboa e, ao mesmo tempo, noutras cidades. Uma dela é Amiens, em França, onde nasceu.

Para a Associação Cardan, de Amiens, que imaginou a Leitura Furiosa e a trouxe até Lisboa, e para a Casa da Achada o saber deve ser acessível àqueles que dele normalmente são excluídos, o saber e a cultura devem nascer de uma ligação com o conjunto da sociedade e a cultura pode e deve ser analisada por aqueles que habitualmente não a praticam ou pouco se ocupam dela. Por aí passa uma outra integração na sociedade daqueles que vivem com mais dificuldades e problemas vários que os afastam dessa cultura. Que pode ser menos aborrecida do que às vezes parece.

A Leitura Furiosa dura três dias. É um momento especial: quem é (ou que a vida tornou) zangado com a leitura, a escrita (e até o mundo) encontra-se com escritores! É um momento único que permite a um não-leitor aproximar-se da magia da escrita, por intermédio de uma pessoa que escreve literatura. Cada um faz ouvir a sua voz e até pode seguir depois um novo caminho, ao descobrir pessoas, coisas, frases, palavras que têm a ver com a sua vida e podem fazer pensar. Em si e nos outros. E na cidade, como propomos este ano na Casa da Achada, por estarmos no ciclo «Estas cidades»: Leitura Furiosa de uma cidade.

Alguns pequenos grupos de gente zangada com a leitura (entre 4 e 6 pessoas) convivem durante um dia (sexta-feira 10 de Junho), com um escritor, convidando-o para um passeio pelo bairro onde se encontram e conversando, de pé ou sentados. Pelo caminho, almoçam. E continuam a conversar.

À noite, o escritor escreverá em casa um pequeno texto, a partir do encontro, que oferecerá ao grupo com quem esteve, quando, no dia seguinte (sábado 11 de Junho), voltarem a encontrar-se, desta vez na Casa da Achada. Lê-se o texto, fala-se do texto, muda-se o texto. E os textos dos vários grupos são ilustrados por desenhadores convidados, à vista de toda a gente.
Depois do almoço, em que zangados com a leitura, escritores e ilustradores se reúnem, todos os grupos visitarão, com o seu escritor, a Casa da Achada e a sua biblioteca e a exposição «Lisboa acima Lisboa abaixo / Lisbonne, lecture d’une ville».

No domingo (12 de Junho, às 15h), os textos são tornados públicos (os que vêm de França são traduzidos para português) numa sessão de leitura em voz alta feita por actore. Será distribuída uma brochura ilustrada, com os textos escritos nas várias cidades, onde cada um, de uma maneira ou de outra, estará: mesmo quem está zangado com a leitura pode entrar, querendo ou não querendo, na literatura que os leitores costumam ler e que os zangados com ela poderão ler também.

Em Lisboa, os escritores João Paulo Esteves da Silva, Miguel Cardoso, Miguel Castro Caldas e Nuno Milagre encontram-se com grupos de pessoas da Associação Espaço Mundo, do Centro Social de São Bento, do Conselho Português para os Refugiados e da Escola n.º 10 do Castelo e escrevem textos que serão ilustrados por Bárbara Assis Pacheco, Marta Caldas, Nadine Rodrigues, Pierre Pratt e Zé d’Almeida e lidos por Andresa Soares, Bruno Humberto, F. Pedro Oliveira, João Cabral, Sofia Ortolá e outros.

E mais tarde nascerá disto tudo um livro, de dezenas de grupos, de escritores e ilustradores que às mesmas horas falaram, ouviram, contaram, perguntaram, responderam, leram, desenharam, em várias partes do país e do mundo. Coisas iguais e coisas diferentes.

O Centenário de Mário Dionísio em Rennes – algumas imagens

18 de Abril de 2016

5 de Abril – Inauguração da exposição «Mário Dionísio – Vida e Obra», traduzida para francês pelos alunos do Departamento de Português da Université Rennes 2 e exposta na Biblioteca Universitária Central de Rennes. Os livros de Mário Dionísio que existem na Biblioteca. André Belo e Karina Marques apresentam a sessão de leitura de poemas de Mário Dionísio e canções.

5 de Abril – Os estudantes de português lêem poemas de Mário Dionísio em português e em francês. Pedro e Diana cantam canções com textos de Mário Dionísio.

6 de Abril – Mesa-redonda com Diana Dionísio («Casa da Achada – Centro Mário Dionísio – une archive vivante»), Pedro Rodrigues («Conflit et unité de l’art contemporain – un essai brûlant»), Catherine Dumas («Coordonnées de l’espace intime chez Mário Dionísio») e Karina Marx («Mário Dionísio et Ilse Losa – 40 ans de correspondance»).

 

Luzia Samuel lê um poema de Mário Dionísio em Rennes.

Centenário de Mário Dionísio em Rennes

30 de Março de 2016

Os alunos e professores do Departamento de Português da Université de Rennes 2 traduziram para francês a exposição «Mário Dionísio – Vida e Obra». Agora vão mostrá-la, na Biblioteca Central da universidade, e haverá leituras, canções e uma mesa-redonda pelo centenário do nascimento de Mário Dionísio.

Na terça-feira 5 de Abril, os estudantes de português farão leituras de poemas de Mário Dionísio e Pedro e Diana cantarão textos do poeta. No dia seguinte de manhã, numa mesa redonda, ouviremos as seguintes intervenções: «Casa da Achada – Centro Mário Dionísio – um arquivo vivo», por Diana Dionísio, «Conflito e unidade da arte contemporânea – um ensaio ardente», por Pedro Rodrigues, «Coordenadas do espaço íntimo em Mário Dionísio», por Catherine Dumas e «Mário Dionísio e Ilse Losa: 40 anos de correspondência», por Karina Marques.

Aqui ficam o cartaz e o programa:

Ciclo «Estas cidades» começa em Abril

24 de Março de 2016

Ciclo Estas cidades - Abril

As cidades que habitamos, onde trabalhamos, passeamos e viajamos. As cidades de prédios e edifícios, de teatros, cinemas e cafés, de gente apressada nas ruas e avenidas, de gente sentada nos bancos de jardim, nas paragens de autocarro ou em cais à espera do comboio.

Cidades em transformação. Crescendo para norte e sul, em altura, rompendo e criando novas velhas fronteiras. Cidades que são poemas, história, reboliço. Apitos, sirenes, ruídos, gritos, murmúrios, o metal e o cimento em construção. Cheiros de guisados e caril, de escapes e fumo de cigarros, de lixo e de maresia. Uma cidade «é uma constante transferência de visões e afectos; é o aplauso à modernização e uma súbita, inexplicável tristeza pelo que desaparece; é a funda e fértil contradição, latente em todas as pessoas e coisas, provocando um estado poético», dizia Mário Dionísio nos anos 50.

Propomos este ciclo sobre cidades a pensar no mundo que por elas passa, no que nelas muda, na vida das pessoas, nas suas habitações e locais de encontro, na expansão e na sobreposição, no chão que pisamos e nas paredes onde nos encostamos, nas subidas e descidas. Cidades que acolhem gente, mas também expulsam, que derrubam muros e levantam outros, que se partilham ou que se deixam vender. Que se abrem e se fecham. O ciclo é feito a partir de Lisboa, cidade onde estamos, sem esquecer, porém, que «moramos nas cidades todas».

Fizemos a festa com a Lega di Cultura di Piadena

24 de Março de 2016

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Nos dias 18, 19 e 20 de Março, algumas pessoas da Casa da Achada foram à festa da Lega di Cultura di Piadena, uma festa internacionalista feita anualmente pelos nossos companheiros italianos, onde nos podemos encontrar, e em que se come, se bebe, se canta, se conversa, se debate e se ajuda a construir a própria festa.

No sábado, às 15h, abrimos o debate «Terra non guerra», com um texto sobre o trabalho, resultado da discussão aberta que fizemos no dia 4 de Março na Casa da Achada «Outro trabalho? Outra vida?». O texto, que lemos a várias vozes em italiano e que tem pelo meio alguns bocadinhos de canções, que cantámos em português, pode ser lido aqui em português e aqui em italiano. Falaram depois Peter Kammerer, Eugenio Camerlenghi, Mario Agostinelli e Gianni Tamino, e seguiram-se intervenções de quem estava na plateia. Falou-se de trabalho, guerra, propriedade, capitalismo, agricultura e tantas coisas mais.

No domingo, foi o dia da festa propriamente dita, com quase 2000 pessoas e muitas canções . Também nós cantámos, a meio da tarde, algumas canções que o coro da Achada canta: Mininu (Ke ki liberdade), En la plaza de mi pueblo, Águas paradas não movem moinhos e Cio da Terra.

Antes de ir embora, ainda cozinhámos dois bacalhaus. E contamos receber os nossos companheiros de Itália na Casa da Achada em Agosto.

Homenagem dos CTT a Mário Dionísio

11 de Março de 2016

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Os CTT vão apresentar, no dia 14 de Março, uma emissão filatélica de homenagem a Mário Dionísio, aproveitando o centenário do seu nascimento. Nesta emissão, há mais duas homenagens: Vergílio Ferreiro e António José de Almeida.

«Nesta emissão filatélica é também homenageado Mário Dionísio aquando do centenário do seu nascimento. Com uma personalidade multifacetada, afirmou-se pela sua dimensão intelectual tendo tido uma forte intervenção cultural, política e cívica na sociedade portuguesa do século XX. Formou-se em Filologia Romântica e foi um professor admirado pelas suas qualidades pedagógicas, sendo recordado como um “mestre”. Foi uma referência da teorização do Neorrealismo e começou a pintar em 1942. Morreu em 1993, quatro anos depois de inaugurar a primeira exposição individual de pintura.

Esta emissão é composta por três selos e um bloco: o selo de Vergílio Ferreira com uma tiragem de 135 000 exemplares para correio nacional; o selo de António José de Almeida com uma tiragem de 110 000 exemplares para correio azul e o selo de Mário Dionísio com uma tiragem de 135 000 para Europa (E20g). O design dos selos esteve a cargo do AF Atelier.

As obliterações de primeiro dia serão feitas nas lojas dos Restauradores em Lisboa, Município no Porto, Zarco no Funchal e Antero de Quental  em Ponta Delgada.»

Mais informações no site dos CTT.

ÂNGELA OLIVEIRA

17 de Fevereiro de 2016

Morreu ontem, com 95 anos, a companheira de sempre de Carlos de Oliveira, co-fundadora da Casa da Achada-Centro Mário Dionísio.

Aqui fica um pequeno vídeo feito por Regina Guimarães e Tiago Afonso, filmado em sua casa em 2009:

Carta a Ângela

Para ti, meu amor, é cada sonho
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e de futuro,
cada dia dos dias que viver.

Os abismos das coisas, quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!

Quantas vezes chorando te alcancei
e em lágrimas de sombra nos perdemos!
As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!

Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos,
foste de novo, e sempre, a mão da esperança
nos meus versos errantes e perdidos.

Transpondo os versos vieste à minha vida
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
Porque chegaste à hora prometida
aqui te deixo tudo, meu amor!

Carlos de Oliveira

Campanha de apoio à reedição d’A PALETA E O MUNDO

10 de Fevereiro de 2016

Foi lançada no passado dia 30 de Janeiro, no início da sessão «Editar à margem», uma campanha para apoio à reedição d’A paleta e o mundo. Esta obra histórica sobre arte e sociedade de uma actualidade surpreendente, ensaio pelo qual Mário Dionísio recebeu o Grande Prémio de Ensaio de 1962, está praticamente esgotada (já só existem para venda alguns dos 5 volumes da 2ª edição de 1973-74) e é nossa vontade conseguir reeditá-la ainda este ano, centenário do nascimento de Mário Dionísio.

Quem quiser dar o seu contributo (no mínimo dois euros) só tem de vir à Casa da Achada e tratar do assunto.  Se preferir pagar por transferência bancária (IBAN: PT50 0036 0000 9910 5869 2830 8), deve enviar-nos um email (para casadaachada@centromariodionisio.org) com o seu nome, o comprovativo, e a indicação de que o valor se destina à reedição d’A Paleta e o mundo. Os nomes dos apoiantes figurarão na futura edição.

Desde 2009 que todas as segundas-feiras às 18h30 na Casa da Achada se realizam sessões de leitura colectiva d’A paleta e o mundo ou de textos referidos no ensaio, com projecção de imagens (vamos agora na segunda leitura integral d’A paleta e o mundo, no fim do volume 3). A recolha das imagens para essas sessões e as emendas que têm vindo a ser assinaladas no texto são já uma parte importante do trabalho para esta reedição.

 

Leitura de Conflito e Unidade da Arte Contemporânea

11 de Janeiro de 2016

O ciclo à volta de Conflito e unidade da arte contemporânea teve, como primeira sessão, para além das regulares sessões de cinema e das oficinas, a leitura integral, acompanhada pela projecção de imagens, desta conferência de Mário Dionísio por Luis Miguel Cintra. A sala encheu-se de gente para ouvir ou acompanhar esta sentida leitura e, após um pequeno intervalo para petiscar e conversar, a contextualização, por Eduarda Dionísio, da conferência proferida pela primeira em 1957 na Sociedade Nacional de Belas-Artes.

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Vamos cantar as Janeiras!

11 de Janeiro de 2016

No passado dia 6 de Janeiro, o coro da Achada, que costuma ensaiar às quartas-feiras à noite, andou pelas ruas do bairro a cantar as Janeiras. O percurso foi vivo, gente se foi juntando, várias garrafas de vinho foram oferecidas à malta, passámos um pouco mais de tempo nas associações Grupo Gente Nova e na Renovar a Mouraria. Que em 2016 nos continuemos a juntar e a cantar por esses quintais adentro, para que caia o Rei-Milhão, nem que chovam picaretas!

Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura

Em Janeiro: Ciclo Conflito e unidade da arte contemporânea

4 de Janeiro de 2016

Para começar o ano, e ao longo de três meses, vamos voltar a ler a conferência Conflito e unidade da arte contemporânea de Mário Dionísio e partir dela para uma série de sessões, conversas, oficinas, um ciclo de cinema que mostra rupturas… Venham ouvir, ver, fazer, falar, participar.

Aqui vos deixamos o programa para Janeiro.

A arte do nosso tempo não é apenas um problema dos artistas, mas de toda a sociedade.
Terreno de conflito, de incompreensão, de luta incessante,
mas também de encontros, descobertas e novas unidades.
A arte e os modos de a produzir, receber e pensar
não estão desligados das questões que mais profundamente nos preocupam hoje,
num mundo violento, complexo e dividido.

Em 1957 Mário Dionísio escreveu o ensaio Conflito e unidade da arte contemporânea
e disse-o em voz alta numa conferência marcante, profunda e polémica.

A Casa da Achada reeditou há pouco o texto desta conferência,
escrita ao mesmo tempo que Mário Dionísio
lançava o seu grande ensaio sobre arte e sociedade,
A paleta e o mundo.

Decidimos dedicar estes três meses àquele ensaio tão rico, tão profícuo e tão actual
que nos desafia também hoje a reflectir sobre as sociedades e as sensibilidades humanas.
Para pensar a arte contemporânea não como uma questão de especialistas
mas como qualquer coisa que nos diz respeito,
afecta, perturba, interroga, inquieta e desperta.

Para entender as cores com que se pinta o mundo de hoje. E para o transformar.

«…só o que se espera ardentemente nos chama, sobretudo nas épocas de perplexidade, onde a força da desilusão e do desencanto não é comparável senão à da expectativa renovada de que não sabemos desistir.»

Mário Dionísio, Conflito e unidade da arte contemporânea

Ciclo CUAC - Janeiro final

Nova circular do Congresso Internacional Mário Dionísio

21 de Dezembro de 2015

Congresso Internacional Mário Dionísio
no centenário do seu nascimento
27-30 de Outubro de 2016

“Como uma pedra no silêncio…”

O Projecto Sinestesia do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em colaboração com a Casa da Achada-Centro Mário Dionísio, o Museu do Neo-Realismo e a Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo, vai levar a efeito um Congresso Internacional sobre a vida e a obra de Mário Dionísio, de 27 a 30 de Outubro de 2016.

Os que se têm dedicado ao estudo da sua intervenção literária, artística, pedagógica e política, e aqueles que desejem pela primeira vez abordar este estudo, são convidados a apresentar trabalhos neste encontro. Os interessados deverão enviar uma proposta de comunicação (resumo de 10 a 15 linhas), acompanhada de um breve curriculum vitae (máximo 1 página), até ao dia 31 de Janeiro de 2016 [o prazo foi prolongado até 29 de Fevereiro de 2016], para o endereço do Centro de Estudos Comparatistas: cec@letras.ulisboa.pt. As propostas serão apreciadas pela Comissão Organizadora e os resultados divulgados até 31 de Março de 2016.

Inscrições: 30 euros; 15 euros para estudantes. Línguas do Congresso: Português, Francês, Inglês.

A Comissão Organizadora encoraja comunicações sobre as diversas áreas do conhecimento abordadas por Mário Dionísio durante a sua vida e na sua obra, com especial destaque para as que articulem alguns desses aspectos entre si:

1. vida e intervenção (actividade crítica, colaboração em jornais, intervenção política, relação com grupos e movimentos do seu tempo, neo-realismo…)
2. literatura (poesia, conto, romance, ensaio, crítica literária, neo-realismo…)
3. pintura (obra pictórica, relações entre as artes…)
4. pensamento sobre as artes (ensaios, crítica de arte…)
5. ensino e pedagogia (percurso, actuação pública na orientação do ensino após o 25 de Abril, textos sobre pedagogia…)

Tendo em vista os leitores em geral e os objectivos deste congresso em particular, a Casa da Achada-Centro Mário Dionísio acaba de editar Para uma bibliografia de Mário Dionísio, uma recolha bibliográfica actualizada e exaustiva, com materiais do seu arquivo. Esta edição está disponível para venda na Casa da Achada-Centro Mário Dionísio e está on-line no sítio aqui.

Comissão organizadora:
Kelly Basílio (Centro de Estudos Comparatistas-Universidade de Lisboa); Paula Mendes Coelho (Centro de Estudos Comparatistas-Universidade Aberta); Diana Dionísio, Pedro Rodrigues (Casa da Achada-Centro Mário Dionísio); António Pedro Pita (Museu do Neo-Realismo-Universidade de Coimbra); António Mota Redol (Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo); Maria Alzira Seixo (Centro de Estudos Comparatistas-Universidade de Lisboa).

Coordenação científica:
Kelly Basílio (Presidente)
Paula Mendes Coelho (Vice-presidente)

Comissão de honra:
Arnaldo Saraiva (Univ. Porto); Carlos Mendes de Sousa (Univ. Minho); Carlos Reis (Univ. Coimbra); Catherine Dumas (Univ. Sorbonne-Paris III); Daniel-Henri Pageaux (Univ. Sorbonne- Paris IV) ; David Santos (Historiador de Arte); Eduardo Lourenço (F. Gulbenkian); Gastão Cruz (Escritor); Ida Ferreira Alves (Univ. Federal Fluminense, Niterói); Isabel Pires de Lima (Univ. Porto); João Dionísio (Univ. Lisboa); Jorge Silva Melo (Actor); José Alberto Machado (Univ. Évora); José Carlos de Vasconcelos (Escritor); José Carlos Seabra Pereira (Univ. Coimbra); José Jorge Letria (Escritor); José Manuel Esteves (Univ. Paris-Nanterre); José Manuel Mendes (Escritor); Júlio Pomar (Pintor); Liberto Cruz (Escritor); Manuel Gusmão (Univ. Lisboa); Margarida Acciaiuoli, (Univ. Nova de Lisboa); Maria João Brilhante (Univ. Lisboa); Mário Cláudio (Escritor); Nuno Júdice (Escritor); Osvaldo Silvestre (Univ. Coimbra); Rui Canário (Univ. Lisboa); Sílvia Chicó (Univ. Lisboa); Vítor Serrão (Univ. Lisboa).

JÁ NÃO HÁ PAPEL!

7 de Dezembro de 2015

Já não há papel-

Venham ver e conviver, ouvir e conversar, participar e ajudar a existência por mais um ano da Casa da Achada – Centro Mário Dionísio. E levar prendas para as festas… O programa completo está mais abaixo.

É um fim-de-semana grande na Casa da Achada, com actividades, sessões públicas e vendas. Há descontos especiais nas nossas edições, obras de arte à venda com preços simpáticos e o sorteio de um quadro para nos ajudar a restaurar um outro.

O fim-de-semana inclui ainda várias sessões do ciclo «Escola para que te quero?», pois a Casa da Achada tem andado estes três meses a debater as escolas, a questionar a educação e a entender a aprendizagem de diferentes pontos de vista. A exposição ainda fica, mas merece uma visita atenta para pensar estes assuntos. Haverá também uma sessão de historietas feita por um amigo da casa (sobre escolas, precisamente) e uma sessão de canções críticas da escola.

Para além de tudo isto, há uma oficina de brinquedos (para fazer) e actuações do Grupo de Teatro Comunitário e do Coro da Achada. E até se come um bolinho…
Aparece e traz um amigo!

// Quinta-feira, 10 de Dezembro:
– 18H30 – TARAS e MANIAS DAS ACADEMIAS

com Cria’ctividade, Jorge Ramos do Ó e Paula Godinho
Esta não é só uma sessão sobre praxes. É uma conversa sobre todo um modo de estar na universidade: as aberturas dos anos académicos, os bailes de finalistas, os trajes dos professores, o formalismo do «senhor doutor», as apresentações de teses de mestrado e doutoramento, o enaltecimento da universidade como local de elite e exigência, o obscurantismo das praxes, a hierarquização piramidal, os discursos da excelência, a organização estudantil, a relação de professores com os alunos – e dos alunos com os professores – dentro e fora das salas de aula, as canções das tunas…

Numa universidade preocupada com rankings e com a internacionalização, com a publicação constante papers e relatórios, na era do mercado de cérebros e da projecção de powerpoints, que tem alterado significativamente os discursos na academia, o que fica da instituição fechada sobre si mesma? E como é que este sistema simbólico e prático, cheio de rituais e de maneiras de estar, inscrito, em parte, numa suposta tradição, se insere e contribui para uma espécie de identidade universitária de e para alguns?

Para esta conversa juntámos gente do Cria’ctividade, que organiza a semana de integração alternativa à praxe em Coimbra, Jorge Ramos do Ó, historiador da educação, e Paula Godinho, antropóloga que tem estudado cerimónias, comemorações e rituais.

// Sexta-feira, 11 de Dezembro:
– 18H30 – CANÇÕES COM ESCOLAS LÁ DENTRO
com Pedro Rodrigues, Toni e Youri Paiva
A escola é um tema muito explorado na música popular. Existem inúmeras canções críticas da escola, contra o autoritarismo dos professores ou os muros da escola. Noutras imagina-se uma escola diferente, outra aprendizagem, noutra sociedade. Pedro Rodrigues, Toni e Youri Paiva andaram a pensar no assunto e vão falar-nos sobre (e dar-nos a ouvir) algumas canções com escolas lá dentro.
// Sábado, 12 de Dezembro:
– 12H – VISITA GUIADA À EXPOSIÇÃO «ESCOLAS: REAPRENDER E ENSINAR»
por Eduarda Dionísio
Através de documentos e imagens inéditos, traçamos o percurso singular de dois professores que também foram alunos antes e depois do 25 de Abril. Mário Dionísio e Maria Letícia Clemente da Silva estiveram ligados ao ensino, deram aulas em vários liceus de Lisboa, e empenharam-se em tornar a escola um lugar de efectiva formação dos jovens. O que pensavam sobre educação e como punham em prática as suas ideias, muito diferentes das que, durante décadas, foram impostas a professores e alunos pelo antigo regime? Uma exposição que nos ajudará a pensar os problemas das escolas hoje.

– 16H – CANTA O CORO DA ACHADA
O Coro da Achada preparou uma série de canções a pensar na escola para mostrar nesta ocasião. Tens de ir à escola para aprender? Não, se for para nos meterem em pequenas caixinhas.

– 17H30 – HISTORIETAS DA ESCOLA
com Pitum Keil do Amaral

Nas várias escolas por onde passámos – ou pelas quais andamos a passar ou ainda iremos passar – há sempre historietas curiosas e engraçadas para contar. Aquele professor que dizia «pois, mas reparem» 1023 vezes na aula, aquele colega que fazia colecção de caracóis e os levava para a aula, aquela árvore onde se podia namorar «às escondidas». Pois, mas reparem, a escola não é só local de aprendizagens e de desaprendizagens, é também uma enorme concentração de histórias e historietas. O Pitum Keil do Amaral reuniu algumas das suas peripécias e convida todos os que quiserem para virem partilhar as suas.

– 19H – O GRUPO DE TEATRO DA CASA DA ACHADA
apresenta «MÃOS COM INQUIETAÇÕES»

«Mãos com Inquietações» é um espectáculo colectivo criado a partir de dois poemas de Mário Dionísio («Pior que não cantar» e «Solidariedade»), do texto («Mãos cheias») de Conceição Lopes, de um excerto do texto A Mãe da Comuna Teatro de Pesquisa, de 1977 (a partir de Bertolt Brecht), e algumas inquietações e outras ideias à volta das mãos (e dos pés), passando e sendo contagiados também pelo poema de Regina Guimarães («Mãos vazias às Mãos cheias») e pelo poema de José Frade («Poder»), sendo tudo pautado pela música do Balanescu Quartet com uma pequena intervenção pelo meio de Arvo Pärt.

Perseguimos a ideia de fazer um trabalho colectivo que vive das presenças e das ausências daqueles que lhe dão corpo, das suas necessidades e dificuldades, das suas raivas e angústias, das suas alegrias e tristezas, mas sobretudo da sua vontade de querer fazer.

Falamos e mostramos as nossas mãos como quem dá e interroga. Tudo podemos fazer e desfazer com as nossas mãos.

// Domingo, 13 de Dezembro:
– 11H – AUDIÇÃO DA GRAVAÇÃO DE «A LUTA CONTINUA, DIZEM ELES»
leitura por Antonino Solmer

Audição do conto de Mário Dionísio, inserido no livro A morte é para os outros.

– 15H30 – OFICINA DE FAZER BRINQUEDOS
com Eupremio Scarpa

Uma tarde a fazer brinquedos a partir do que pensamos que já não presta. Para todos, a partir dos 6 anos.

– 18H – UM POEMA DO SONHO
O primeiro dos «Dois poemas do sonho» de Mário Dionísio foi a inspiração para a construção de uma pequena BD. A partir dela, nasceu uma espécie de animação, a que chamámos «Um poema do sonho».

Começando por uma questão e a terminar com outra, é, acima de tudo, um problematizar de divagações. Não é nada pegadógico, mas voa sobre as formas como se aprende e se memoriza a informação e o conhecimento, sobre graus de ignorância e sobre os cinco sentidos e a vontade de conversar. Sem caras, vozes ou histórias de vida mas a exalar cheiro humano até na banda sonora.

– 19H30 – SORTEIO DE UMA OBRA DE ARTE
Durante estes dias, vamos vender senhas para o sorteio de uma serigrafia de Hansi Stäel. O sorteio é no domingo.

Maria Letícia, professora: «Não me digam disparates, que eu trepo pelas paredes acima!»

16 de Novembro de 2015

No sábado, dia 14 de Novembro, às 16h00, no âmbito do ciclo «Escola, para que te quero?» teve lugar na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, a conversa sobre Maria Letícia Clemente da Silva – Professora: «Não me digam disparates que eu trepo pelas paredes acima!», apresentada por Diana Dionísio que conheceu de perto o rigor da sua avó no que toca a aprendizagens (mas sempre e só depois do lanche). E, a avaliar pelo seu depoimento, não fazia por menos, esta mulher, no combate à ideia burguesa de mulher: esposa, mãe de família e basta, que para tudo o mais estava o homem. Assim a maior parte das suas contemporâneas, em número reduzido, as independentes pelo trabalho ou a frequentar universidades, como a Faculdade de Letras, onde Maria Letícia encontra o seu companheiro, Mário Dionísio.

Nascida em 1915, em Beja, mas cedo a viver em Lisboa, instruída pela mãe (que tirara um curso de magistério primário) e acompanhada no seu percurso pelo pai, trabalhador ferroviário que se fez advogado no combate a uma sociedade injusta – como a portuguesa que, nos anos quarenta, impediu a filha de exercer a profissão durante oito anos «por razões de ordem política» – Maria Letícia estudou no Liceu Camões e, em 1937, concluiu o Curso Superior de Piano do Conservatório Nacional e o Curso de Filologia Clássica.

Professora de Português e de Latim, estagiou no Liceu Pedro Nunes, deu aulas no Liceu de Santarém, e, em Lisboa, nos liceus Camões, D. Filipa de Lencastre e D. Leonor. Quando impedida de exercer nas escolas estatais, leccionou no ensino privado até lhe ser interdito em absoluto o exercício da profissão, do que se defendeu dando explicações particulares em casa (o que manteve ao longo da sua vida activa). Ela, que não se considerava uma «pessoa importante» (mas importante a sua acção), dos muitos documentos produzidos para as aulas, preservou poucos. Os que restam revelam-nos porém a vontade de não se ficar por um desempenho suficiente na função. Nos seus relatórios de docente – naquele que nos foi lido – ressalta a preocupação por um ensino melhor, atenta ao que encontra de positivo nos métodos das escolas francesas e inglesas. Sem dúvida, uma demanda exigente para o aluno por parte de quem afinal usufruíra de condições excepcionais na sua educação, mas uma exigência pela inteligência e pelo trabalho a que ela tivera também de corresponder, e que começa, antes do mais, no seu próprio trabalho enquanto professora, configurando todo um programa de vida e modo de ser.


O mesmo empenho revela-se em outras actividades que não se esgotam no ensino propriamente dito, como a colaboração numa curiosa secção do jornal A Capital, intitulada «Consultório Escolar» (mantida entre 1968 e 1969, com Maria Emília Coutinho Diniz, sob o pseudónimo Dinis da Silva); a autoria de livros escolares para o ensino do Português em pareceria com a filha, Eduarda Monteiro (Eduarda Dionísio), que marcaram (sobretudo o primeiro, de 1969) uma diferença no intuito pedagógico pela inclusão de textos de autores menos divulgados ou mesmo contemporâneos e de imagens que não as oficiosas, afectas ao regime e à ideologia então dominante; o trabalho desenvolvido na Comissão para a Reforma do Ensino, logo a seguir ao 25 de Abril; e, ainda, o rigoroso cuidado investido em revisões e traduções que fez, assinadas ou não, com nome próprio ou inventado pelo editor (Maria Letícia Dionísio).


Dos depoimentos feitos pelos presentes na sala, apesar dos poucos ex-alunos, fica ainda a ideia de uma professora atenta ao indivíduo e disposta ao diálogo nos intervalos das aulas, momento em que se tiram dúvidas e se fala também da actualidade, sobre a qual se mostra informada e interessada. Testemunhos também de quem conviveu entre professores nas escolas, antes do 25 de Abril, dando-nos conta da separação de género nos espaços (salas) reservados aos professores e às professoras e da acentuada hierarquização sentida pelos estagiários que não tinham direito a frequentar estes mesmos espaços, nem estatuto para serem directamente interpelados ou sequer terem voz ou opinião, no que Maria Letícia se distinguiu por ser dos poucos que não seguiu esta prática. Constrangimentos igualmente sentidos pelos alunos na comunicação com o professor, até no tirar dúvidas sobre a matéria ou sobre a linguagem dos manuais, levando em extremo à ideia de que estes livros eram para quem sabia e não para quem queria saber.

Durante a conversa, houve ainda várias remissões para os documentos que integram a exposição patente ao público sobre o percurso dos dois professores, Mário Dionísio e Maria Letícia Clemente da Silva, intitulada «Escolas: reaprender e ensinar», que está até 18 de Abril de 2016.

Mário Dionísio, professor, visto pelos seus alunos e colegas

31 de Outubro de 2015

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No sábado dia 24 de Outubro, às 16h, realizou-se uma sessão especial do ciclo «Escola, para que te quero?», dedicada a Mário Dionísio, com a participação de vários dos seus alunos e colegas. A sessão, intitulada «Mário Dionísio pelos seus alunos e colegas», contou com a presença de Adelina Precatado, Luis Miguel Cintra, Luís Neto, Miguel Lobo Antunes e Jorge Silva Melo.

Na plateia, outras vozes se fizeram ouvir, de gente que conheceu Mário Dionísio e parte de uma vida inteira a ser professor mas também de quem o conheceu apenas através dos seus textos e das suas posições públicas sobre a escola e a educação.

Depois de uma introdução de Diana Dionísio e de João Rodrigues, lembrando as outras sessões do ciclo em curso, chamando a atenção para a exposição visível na zona pública e para a recente edição do livro O quê? Professor? onde se reúnem, pela primeira vez, os textos fundamentais de Mário Dionísio sobre ensino.

Foi aliás com uma referência a esse livro que começou Adelina Precatado, falando da experiência do Liceu Camões, onde Mário Dionísio foi professor durante anos. A professora de matemática falou de um «um conjunto de princípios» nas ideias de Mário Dionísio relativamente à educação e enquadrou o seu pensamento relativamente a algumas questões importantes e actuais: a defesa da gestão democrática das escolas, a crítica da avaliação e da sua centralidade, a necessidade de experimentação e melhoria contínua dos processos educativos («não desistir, fazer sempre melhor»), e a ideia simples (mas tão frequentemente esquecida) de que o aluno não é um número.

Fernando Gomes trouxe memórias do seu tempo no Liceu Camões (quando tinha apenas 10 anos) e lembrou como aquela era uma escola de «disciplina férrea» onde a figura de Mário Dionísio aparecia como uma lufada de ar e de inteligência. E como ao rigor se juntava a ironia e um humor subtil.

Luis Miguel Cintra leu um texto escrito por si para lembrar como aprendeu, nas aulas de francês de Mário Dionísio, muito mais do que francês: saber ver, aprender, dizer e questionar. Luis Miguel Cintra lembrou ainda como aprendeu, com curiosidade e paixão. Caracterizou a forma de estar de Mário Dionísio como «uma tranquila lucidez, por mais apaixonada que fosse». Com as palavras bem escolhidas, porque «nomear apenas, já é intervir». Um professor excepcional que o ajudou a «aprender a estar vivo».

Miguel Lobo Antunes também foi seu aluno de francês e lembra-se de «ficar pegado ao que dizia». Uma memória, partilhada por outros, de extraordinárias aulas sobre as «Viagens na minha terra» de Almeida Garrett, viajando pelas palavras e pelas ideias. Lobo Antunes sublinhou que havia neste professor uma ideia de responsabilidade, de cada um e colectivamente. Mas também como ele o ensinou a aceitar a mudança, e a aceitar que mudamos.

Jorge Silva Melo só pôde chegar um pouco mais tarde, mas disse ainda de sua justiça sobre alguns traços fundamentais da prática de Mário Dionísio enquanto professor: um domínio excepcional do tempo (e do tempo da aula), a capacidade de relacionar sem sair do assunto, e sobretudo uma análise das obras que partia do texto e não das regras pré-fixadas, das leis já estabelecidas, dos preconceitos. Um close reading, uma capacidade crítica que não se limita a verificar, mas que faz pensar as próprias regras do texto. E uma preocupação com a expressão clara: porque a linguagem é imperfeita, mas não tem de ser suja – pode ser limpa e sempre reinventada.

Coisas que perduraram, não só na memória, mas na vida destas pessoas. Alguém disse: «espero ser ainda aluno dele, apesar de já não ser há muitos anos».

 

André Spencer e F. Pedro Oliveira para Casa da Achada - Centro Mário Dionísio | 2009-2020