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Memórias de «Para que serve a memória»

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Entre 25 e 29 de Agosto, a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio realizou uma iniciativa intitulada «Para que serve a memória», com a presença de amigos da Lega di Cultura di Piadena, uma associação cultural à beira dos 50 anos de existência. Foram dias intensos na Casa da Achada de exposições, debates, filmes e cantos, com muitos amigos presentes, daqueles que não se vêem todos os dias. Oportunidade rara para discutir «memória» e como ela se torna activa quando queremos transformar o mundo, para discutir o problema das «fronteiras» num clima de solidariedade internacional, para pensar o «trabalho» e as formas de combater e dar a volta à exploração.
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No primeiro dia foi inaugurada a tripla exposição de fotografias de Giuseppe Morandi (montada com ajuda do Peto e do Leo, dois amigos da Lega di Cultura que também vieram), fotomontagens de Nancy Goldring e de câmaras fotográficas do espólio de Vítor Ribeiro, o Maçariku, fundador da Casa da Achada que queríamos mais uma vez lembrar e homenagear, dois anos depois da sua morte. A partir da sua vida surgiram naturalmente os assuntos que queríamos levantar, temas fortes da sua acção e do seu pensamento: «memória», «fronteiras», «trabalho». Apareceu muita gente logo no primeiro dia, 25 de Agosto, para inaugurar estas exposições e ouvir Eduarda Dionísio, Paolo Barbaro e Nancy Goldring, que explicaram as ideias centrais destas exposições.
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A relação com a Lega di Cultura di Piadena esteve no centro – e a memória serviu, entre outras coisas, para lembrar com entusiasmo e emoção uma cumplicidade e uma amizade de 20 anos. Eduarda Dionísio elaborou uma cronologia bem detalhada desta amizade internacionalista com a Lega di Cultura di Piadena. Esta associação é sediada em casa de Gianfranco Azzali (o Micio, que também esteve presente, é claro!). Numa das paredes dessa casa está uma frase de Gianni Bosio: «Todos os homens devem tornar-se homens de cultura sem perder a sua qualidade de homens».
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Na sexta-feira, dia 26, projectou-se um filme recente de Giuseppe Morandi (os seus belos filmes antigos estiveram a ser transmitidos numa pequena televisão durante a exposição) que deu o mote para o primeiro dos debates, aberto por Pedro Prista, e que deu origem a uma animada discussão sobre a memória e os seus usos, os seus processos, as suas contradições. Muito participada, mas ficou a sensação de que se tinha de ir mais longe ainda, de que não havia tempo para um debate tão vasto. Nessa noite, depois de boas comidas acompanhadas pelo inevitável Grana Padana, o queijo italiano da região de onde vêm, houve cantoria: Bruno Fontanella cantou, acompanhado por Maurizio, Peto e Leo, canções populares e hinos da unidade de Itália do século XIX. Um concerto que foi gravado por Joaquim Pinto e alguns seus colaboradores, a pensar numa edição futura… Depois de Bruno Fontanella e do canto de outro amigo vindo de Piadena, o imigrante indiano Jagjit que também faz parte da Lega di Cultura, pudemos ouvir ainda Adufe e Alguidar, um grupo de jovens mulheres que cantam e tocam percussões várias (com o Adufe em destaque), reinventando a memória e criando coisas novas a partir de cantos de raiz tradicional. Uma bela noite que deu ainda para um animado convívio com partilhas de canções até às tantas, no jardim interior da Casa da Achada.
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No Sábado as hostilidades começaram com o debate sobre o trabalho, aberto por um grupo da Casa da Achada num diálogo sobre o trabalho construído a partir de um debate aqui realizado no início do ano sobre «Outro trabalho, outra vida». As provocações quase «teatrais» deram origem a um debate animado (mais uma vez muito vasto, e muita gente quis tomar a palavra). Conclusões? Às vezes no levantar de questões e nas escolhas dos problemas já se diz muito… Diminuir o horário de trabalho? Sim, mas não chega. Transformar o trabalho, superar as contradições insolúveis do capitalismo? Sim, mas é preciso também pensar e praticar outras formas de trabalho e vida em comum. E por aí fora, com divergências e convergências que levamos, mais ricos (mesmo se de bolsos vazios), para as lutas quotidianas que se seguem… Como diz a canção que se ouviu à noite: «…Scarpe rotte, Eppur bisogna andar…» («…sapatos rotos, e contudo é preciso caminhar»).
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Na noite de Sábado, mais um concerto, com canções populares italianas pelos mesmos Bruno, Peto, Leo e Maurizio. E depois o Coro da Achada, com a energia renovada, inspirados pelos fortes cantos (e que forma de cantar!) dos nossos amigos italianos.
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No Domingo, o último dos debates, «Abolir fronteiras, separar as águas», tentando levantar o problema que parece urgente de uma Europa fechada a cadeado e a arame farpado, com milhares de pessoas a fugirem de guerras e a depararem-se com fronteiras bem vigiadas, arriscando a vida pela paz, pelo pão. Peter Kammerer levantou problemas de fundo para pensarmos se podemos de facto «abolir fronteiras», ou se é apenas uma utopia… Bruno Fontanella supreendeu fazendo a sua intervenção cantada. Uma canção pode dizer muito, até num debate. E faz-nos pensar que a terra (e o mundo) podia mesmo ser de todos os que a trabalham
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Debate complexo e longo, onde se falou de outras fronteiras (na língua, na linguagem, nas ideias) que nos separam também. Mas foi a comer o queijo que nos esquecemos das diferenças. E a beber o vinho que cantámos a igualdade, a fraternidade e o grito revolucionário «A nossa pátria é o mundo inteiro» que nos faz ver mais longe, muito para lá das barreiras. À noite, o último concerto.
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Canções de resistência e de luta do século XX italiano. Mas também canções populares do Bruno, do pai do Peto e da mãe do Micio. Canções que resistem e que nos vêm à memória. Para mudar as coisas já. Depois, o grupo Frente Popular, que animou as hostes (e até nos pusemos a dançar) com novas versões de canções revolucionárias portuguesas e canções anti-colonialistas africanas.
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No dia seguinte, segunda-feira, houve ainda um extraordinário passeio no Tejo com alguns dos amigos da Lega di Cultura. Fomos até ao lado de lá, visitar amigos «de cá», de Alhos Vedros – a associação CACAV, onde se voltou a cantar e a comer com alegria. porque outros já tinham partido, deixando ideias e abraços e tanta força, mas também saudades. Ainda sobra daquele grande queijo de Itália, e já estamos em Setembro.
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Para que serve a memória? Anotar num caderninho, para não esquecer: «A nossa pátria é o mundo inteiro» e «Não se pode ser feliz sozinho». Promessa: nos 50 anos da Lega di Cultura di Piadena vamos lá nós. A amizade é como a liberdade: se não se praticar, esquece. E às vezes é mesmo preciso aquele abraço.

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André Spencer e F. Pedro Oliveira para Casa da Achada - Centro Mário Dionísio | 2009-2017